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Maurício Kenyatta

Operação Contenção: Necropolítica, Racialização e a Militarização da Segurança Pública no Brasil

Análise crítica da Operação Contenção no Rio de Janeiro através das lentes teóricas de Mbembe, Fanon e Krishna. Explora a necropolítica, racialização e militarização da segurança pública brasileira.

03 de novembro de 2025· 3 min de leitura
Operação Contenção: Necropolítica, Racialização e a Militarização da Segurança Pública no Brasil

A deflagração da chamada Operação Contenção em 28 de outubro de 2025 no Rio de Janeiro — mais letal ação policial da história do estado, com estimativas que variam entre 64 e mais de 120 mortos em poucos dias — evidencia não apenas uma escalada da militarização da segurança pública, mas a convergência de lógicas locais, nacionais e transnacionais de violência controlada.

O evento ocorre em sequência à decisão da ADPF 635 (ADPF das Favelas) do Supremo Tribunal Federal em abril de 2025. Poucos meses depois, o cenário se cristaliza numa ação massiva de força letal, fortemente apoiada pelo governo estadual, que rotulou os alvos como narcoterroristas e descreveu a operação como sucesso absoluto, negando a existência de inocentes entre os mortos.

Nesse contexto, disputa-se a narrativa pública. De um lado, o governo e a grande mídia mainstream reforçam o frame da guerra ao tráfico. De outro lado, organizações de direitos humanos, imprensa investigativa e movimentos populares denunciam uma letalidade desproporcional, indícios de execução sumária e negligência no socorro de feridos.

Análise Teórica: Mbembe, Fanon e Krishna

A aplicação das lentes teóricas de Achille Mbembe, Frantz Fanon, Sankaran Krishna e Narendran Kumarakulasingam ajuda a decifrar o que está em jogo. Primeiro, pela via da necropolítica, Mbembe nos alerta para a lógica do poder soberano que decide sobre quem vive e quem morre. No caso da Contenção, o Estado exerceu esse direito de matar em escala inédita no território urbano do Rio de Janeiro, situando as favelas como zonas de exceção onde os direitos fundamentais são suspensos.

Fanon permite ver que essas populações — majoritariamente jovens negros de periferia — continuam a ser definidas socialmente como menos humanos, legitimando sua exterminação ou invisibilização. Krishna nos ajuda a entender o funcionamento do que ele chama de orientalismo cotidiano: a terminologia de narcoterrorismo e territórios incontrolados desloca o debate sobre segurança social para o terreno da exceção militar.

Kumarakulasingam introduz o elemento da racialização do afeto e do Caring International Self, ao mostrar como certas vítimas mobilizam compaixão e intervenção — enquanto outras são rapidamente categorizadas como dispensáveis. No Brasil, a disparidade de reação pública entre os quatro policiais mortos e mais de cem moradores favelados mortos revela essa hierarquia de luto e valor de vida.

Perspectivas e Recomendações

Em termos de conjuntura imediata, três tendências surgem no horizonte: a continuidade da militarização da segurança urbana como fórmula política-eleitoral; o risco de deslocamento das facções para municípios vizinhos; e uma crescente pressão internacional sobre o Brasil quanto ao respeito a direitos humanos.

Para a política pública, algumas recomendações são urgentes: garantir plena transparência e controle externo de operações de alto risco; priorizar a inteligência antes da força bruta; proteger civis e garantir continuidade de serviços públicos; adotar métricas públicas de monitoramento de letalidade policial; e reformular a comunicação pública para evitar rótulos raciais e de guerra.

Em síntese, a Operação Contenção representa um ponto de inflexão que expõe com clareza como a segurança pública no Brasil está imbricada com lógicas globais de poder, raça e exceção. A questão fundamental é: se queremos verdadeiramente uma sociedade que valorize todas as vidas, será preciso que a lógica da exceção, da militarização e da hierarquia racial seja radicalmente revisitada.

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