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Maurício Kenyatta
Relações InternacionaisIntegração RegionalCELAC

CELAC–África em Bogotá: voz externa em expansão, capacidade interna ainda incerta

O Fórum CELAC–África em Bogotá revelou o que o bloco já sabe de si mesmo: fala bem em nome da região, mas tem dificuldade em organizá-la. Isso não é pouco — mas também não é suficiente.

13 de maio de 2026· 2 min de leitura
Mapa estilizado mostrando conexões entre América Latina e África, representando o Fórum CELAC–África em Bogotá

O Fórum de Alto Nível CELAC–África aconteceu em Bogotá nos dias 20 e 21 de março, concebido pelo governo colombiano para fortalecer o diálogo birregional e consolidar vínculos de cooperação Sul-Sul entre América Latina, Caribe e África. A passagem da presidência pro tempore da Colômbia para o Uruguai deu ao encontro um peso adicional: não foi só vitrine diplomática, mas também um momento de transição interna dentro do principal mecanismo latino-americano de concertação sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá.

A força da CELAC: falar em nome da região

O evento mostrou, com bastante nitidez, onde a CELAC funciona melhor. Quando a tarefa é produzir presença internacional, costurar linguagem comum do Sul Global e projetar a região em diálogos com outros polos do sistema, o bloco encontra sua melhor versão. O encontro com a África traduziu isso em prática: mais do que criar obrigações densas ou estruturas permanentes, a CELAC funcionou como plataforma de voz coletiva, de aproximação simbólica e de articulação política entre regiões periféricas que compartilham demandas por maior autonomia e mais peso na governança global.

A ambiguidade estrutural

É aí que aparece a ambiguidade do bloco. A CELAC consegue falar em nome da região com mais facilidade do que consegue organizá-la. Fica claro que o mecanismo tenta ampliar sua projeção externa ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades internas para produzir consensos estáveis, por conta de divisões ideológicas e baixa densidade institucional.

A rotatividade da presidência, que agora passa ao Uruguai, é coerente com essa lógica: preserva flexibilidade e acomoda diferenças, mas dificulta continuidade política e capacidade executiva. O resultado é um bloco que tende a se fortalecer como foro diplomático antes de se consolidar como mecanismo efetivo de coordenação regional.

Bogotá sem cinismo, sem ilusão

Talvez o mais importante seja ler Bogotá sem cinismo e sem ilusão. O encontro não resolveu as fragilidades da CELAC, nem transformou o mecanismo em bloco de integração densa. O que fez foi reafirmar que o regionalismo latino-americano continua vivo quando opera no registro da concertação estratégica — em segurança alimentar, transição energética, cooperação Sul-Sul e busca de maior margem de manobra internacional.

A CELAC é, assim, uma articulação política que amplia voz mas ainda luta para converter discurso em capacidade. Numa região fragmentada, isso já não é pouco. Mas também está longe de ser uma plataforma que ofereça condições sólidas de inserção internacional para seus membros.

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