A inteligência artificial deixou de ser apenas um setor específico da inovação tecnológica. Progressivamente, converte-se em infraestrutura da ordem internacional: condiciona capacidades produtivas, reorganiza dependências econômicas, interfere nos sistemas de defesa e vigilância, transforma o funcionamento das administrações públicas e participa da definição das posições que Estados, empresas e sociedades ocuparão na economia mundial.
É sob essa perspectiva que o discurso de Xi Jinping na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial de 2026 deve ser interpretado. Mais do que uma manifestação sobre inovação, seu pronunciamento pode ser compreendido como uma formulação de política externa. Seu objeto imediato é a inteligência artificial, mas seu conteúdo político mais amplo diz respeito à posição da China no processo de transformação da ordem internacional.
A mensagem organiza-se em torno de três proposições articuladas. A primeira é que a inteligência artificial representa uma transformação histórica comparável às grandes revoluções industriais. A segunda é que os benefícios dessa transformação não deveriam permanecer concentrados em poucos países, empresas e centros de poder. A terceira é que a China pretende participar não apenas do desenvolvimento de tecnologias, mas da construção das instituições, dos padrões técnicos, das redes de cooperação e das narrativas que organizarão internacionalmente essa transformação.
O discurso associa modelos abertos, capacitação de países em desenvolvimento, segurança da inteligência artificial e criação de uma nova organização internacional. Não se trata de elementos independentes. Em conjunto, eles expressam uma estratégia voltada para a formação de um ecossistema tecnológico e institucional no qual a China pretende ocupar posição central.
A questão fundamental, portanto, não é apenas quem desenvolverá os modelos mais avançados. É quem será capaz de transformar capacidades tecnológicas em infraestrutura, padrões, mercados, instituições e relações duradouras de cooperação e dependência.
1. A estrutura discursiva: tecnologia, desenvolvimento e ordem internacional
1.1 A inteligência artificial como ruptura histórica
Ao comparar a inteligência artificial à máquina a vapor e à eletricidade, Xi insere a tecnologia em uma narrativa de transformação sistêmica. A comparação não é meramente ilustrativa. Ela produz efeitos políticos porque apresenta a expansão da IA como parte de um processo histórico abrangente, com capacidade para alterar as estruturas econômicas e as hierarquias internacionais.
O primeiro efeito dessa formulação é naturalizar a transição tecnológica. A inteligência artificial aparece como uma transformação dificilmente reversível. A questão deixa de ser se os países participarão desse processo e passa a ser em que condições, com quais capacidades e a partir de qual posição participarão.
A temporalidade do discurso produz, portanto, uma urgência política. As decisões tomadas durante o período de transição poderão definir posições futuras na distribuição internacional do poder. Países que não desenvolverem capacidades científicas, regulatórias e infraestruturais correm o risco de ingressar na economia da IA apenas como consumidores de tecnologias produzidas, controladas e atualizadas no exterior.
O segundo efeito é converter a capacidade em inteligência artificial em indicador de modernidade, desenvolvimento e poder nacional. Nesse enquadramento, Estados que dominam modelos, dados, infraestrutura computacional, energia, aplicações e padrões técnicos não possuem somente uma vantagem econômica circunstancial. Participam da definição da próxima estrutura produtiva internacional.
A inteligência artificial não é apresentada apenas como ferramenta. Ela aparece como uma das infraestruturas a partir das quais serão organizadas a produção, a circulação de informações, a administração pública, a inovação científica e parcelas crescentes da segurança internacional.
Trata-se, assim, de uma narrativa sobre transição histórica e distribuição de posições. O sistema internacional estaria ingressando em uma nova etapa, mas seus resultados não se distribuiriam automaticamente de forma equilibrada. O ponto de partida dos Estados é profundamente desigual, e as decisões tomadas durante essa transição podem ampliar ou reduzir assimetrias já existentes.
1.2 A desigualdade tecnológica como "injustiça histórica"
A referência às "novas injustiças históricas" desloca a inteligência artificial do campo estritamente comercial para o campo da distribuição internacional de capacidades e oportunidades.
A escolha dessa expressão relaciona a atual desigualdade tecnológica com assimetrias anteriores de industrialização, infraestrutura, conhecimento científico, financiamento e inserção internacional. A concentração da inteligência artificial deixa de aparecer como consequência neutra do mercado e passa a ser enquadrada como problema político da ordem internacional.
Essa operação discursiva permite à China apresentar-se como interlocutora dos países que temem permanecer subordinados na nova divisão internacional do trabalho tecnológico. Em lugar de produtores, esses países poderiam converter-se em fornecedores de dados, energia, minerais e mercados consumidores, sem adquirir capacidade efetiva para desenvolver, avaliar ou controlar os sistemas utilizados em seus próprios territórios.
A oferta de capacitação, centros de cooperação e apoio a aplicações de inteligência artificial procura conferir conteúdo material a essa posição. Xi anunciou cinco mil oportunidades de treinamento para países em desenvolvimento e a criação de centros de cooperação associados a agrupamentos e organizações como BRICS, Associação de Nações do Sudeste Asiático, União Africana, Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, Liga Árabe e Organização para Cooperação de Xangai.
O destinatário político central do discurso é, portanto, o chamado Sul Global. Xi não fala somente sobre a China diante dos Estados Unidos. Seu discurso procura responder a uma questão mais ampla: qual potência ou coalizão oferecerá aos países em desenvolvimento as condições mais acessíveis de inserção na economia política internacional da inteligência artificial?
Essa formulação é relevante porque altera o enquadramento da disputa. A competição deixa de ser apresentada apenas como rivalidade sino-americana e passa a envolver a capacidade de cada potência para organizar redes de parceiros, construir legitimidade e oferecer bens tecnológicos, institucionais e simbólicos a terceiros países.
Não se trata de aceitar de forma automática a autodescrição chinesa como representante do Sul Global. Trata-se de reconhecer que o discurso procura ocupar esse espaço político, articulando a posição internacional da China às demandas por desenvolvimento, acesso tecnológico e redução das assimetrias globais.
1.3 O código aberto como linguagem diplomática e estratégia de formação de ecossistemas
A promoção de modelos abertos exerce função central nessa arquitetura discursiva. A abertura aparece como instrumento de democratização tecnológica, redução de custos e disseminação de capacidades.
No entanto, em Relações Internacionais, o código aberto não deve ser analisado apenas como característica técnica dos modelos. Ele também pode operar como instrumento de política externa e de formação de ecossistemas tecnológicos.
Quanto maior for o número de universidades, governos, centros de pesquisa e empresas que adotam modelos desenvolvidos na China, maior poderá ser a demanda por infraestrutura compatível, serviços de nuvem, atualizações, especialistas treinados, interfaces, padrões técnicos, centros de dados e cooperação com empresas e instituições vinculadas ao país fornecedor.
A abertura inicial pode, ao mesmo tempo, ampliar a difusão da tecnologia e favorecer a formação de uma rede internacional organizada em torno de determinado ecossistema. O acesso gratuito ou facilitado ao modelo não elimina necessariamente outras formas de dependência relacionadas à infraestrutura, ao conhecimento especializado, à manutenção e à atualização dos sistemas.
Isso não significa que toda adoção tecnológica produza automaticamente subordinação. Significa que o poder não está apenas na propriedade formal do modelo. Está também na capacidade de construir a infraestrutura necessária ao seu funcionamento, formar os profissionais que o operam, oferecer manutenção, estabelecer padrões de interoperabilidade e tornar custosa a substituição futura do fornecedor.
A disputa em torno dos modelos abertos demonstra, assim, que a inteligência artificial não pode ser reduzida ao software. Ela depende de uma arquitetura sociotécnica mais ampla, composta por hardware, energia, dados, telecomunicações, financiamento, instituições científicas e normas jurídicas.
É nessa arquitetura que se formam relações duradouras de poder. Um país pode possuir acesso ao código e, ainda assim, depender de terceiros para obter capacidade computacional, chips, serviços de nuvem ou conhecimentos especializados. A abertura do modelo pode reduzir determinadas barreiras, sem eliminar a assimetria existente entre quem utiliza a tecnologia e quem controla as condições materiais de sua reprodução.
1.4 Cooperação e segurança como dimensões complementares
O discurso combina uma linguagem de abertura com uma linguagem de controle. De um lado, Xi afirma que a inteligência artificial não deveria ser o espaço exclusivo de um único país e critica a ampliação indiscriminada dos argumentos de segurança nacional. De outro, defende legislação, monitoramento tecnológico, sistemas de alerta e mecanismos de resposta emergencial destinados a assegurar o controle humano sobre a IA.
A combinação não constitui necessariamente uma contradição. Ela cumpre uma função diplomática específica. A China procura ocupar simultaneamente duas posições: a de defensora da ampliação internacional do acesso e a de participante responsável da governança global dos riscos.
A segurança é reconhecida como dimensão legítima, mas o discurso procura retirar de qualquer Estado isolado o monopólio de determinar quais ameaças justificariam restrições tecnológicas internacionais. A crítica não se dirige à existência de preocupações de segurança, mas à sua utilização unilateral para restringir mercados, tecnologias, investimentos e cadeias de fornecimento.
Essa formulação procura estabelecer uma distinção entre governança compartilhada de riscos e securitização unilateral da tecnologia. A primeira seria apresentada como necessária ao controle humano e à prevenção de danos; a segunda, como possível instrumento de contenção econômica e tecnológica.
A mensagem chinesa não propõe, portanto, uma circulação internacional sem regras. Procura disputar quem formulará as regras, em quais instituições e a partir de quais princípios.
2. O interlocutor ausente: os Estados Unidos
Xi não precisou mencionar diretamente os Estados Unidos para construir o contraste político. A arquitetura do discurso estabelece implicitamente dois modelos de organização internacional da inteligência artificial.
De um lado, encontra-se a estratégia norte-americana fundamentada em alianças com parceiros considerados confiáveis, proteção das cadeias de semicondutores, controle de tecnologias sensíveis, acesso a minerais críticos e segurança da infraestrutura de IA. A iniciativa Pax Silica, por exemplo, é apresentada pelo Departamento de Estado norte-americano como um esforço estratégico voltado à segurança das cadeias de fornecimento relacionadas à inteligência artificial.
De outro lado, o discurso chinês apresenta um modelo centrado em acesso, capacitação, modelos abertos, multilateralismo e cooperação com países e organizações do Sul Global.
A distinção, entretanto, não deve ser interpretada como uma separação absoluta entre fechamento e abertura. Essa oposição reproduziria as autodescrições das próprias potências sem examinar os interesses que estruturam suas estratégias.
Tanto os Estados Unidos quanto a China procuram internacionalizar suas tecnologias, formar coalizões, assegurar cadeias de fornecimento, difundir seus padrões, reduzir vulnerabilidades externas, abrir mercados para suas empresas e influenciar as regras futuras da governança da inteligência artificial.
A diferença encontra-se principalmente na linguagem empregada, nos parceiros prioritários e na forma de legitimar internacionalmente as respectivas iniciativas.
Os Estados Unidos enfatizam segurança, confiança, resiliência e cadeias organizadas entre aliados e parceiros confiáveis. A China mobiliza o vocabulário do acesso, do desenvolvimento, do multilateralismo e da redução das desigualdades tecnológicas.
As duas estratégias procuram transformar capacidade tecnológica em poder internacional. A tecnologia é diferente, mas o movimento político é conhecido: converter recursos materiais em instituições, alianças, dependências e autoridade normativa.
A competição sino-americana não ocorre somente no plano dos modelos, chips e empresas. Ela envolve a construção de diferentes geografias políticas da tecnologia. Cada potência procura definir quais países integrarão suas redes, quais fluxos serão considerados seguros, quais infraestruturas serão confiáveis e quais padrões deverão orientar a interoperabilidade internacional.
A disputa pela IA é também, nesse sentido, uma disputa pela reorganização do espaço político internacional.
3. A WAICO e a disputa pela institucionalização da inteligência artificial
A criação da World Artificial Intelligence Cooperation Organization, a WAICO, com sede em Xangai e acordo inicial assinado por 29 países, procura transformar o discurso em iniciativa institucional.
Em Relações Internacionais, a importância potencial da organização não depende apenas do número inicial de participantes. Dependerá, sobretudo, das funções que conseguir exercer e do grau de autoridade que seus membros estiverem dispostos a reconhecer.
A WAICO poderá adquirir relevância caso consiga produzir padrões técnicos, coordenar posições diplomáticas, organizar programas de capacitação, financiar infraestrutura, estabelecer princípios de governança, avaliar sistemas, promover projetos internacionais e representar posições comuns em outras arenas multilaterais.
Instituições internacionais não são apenas espaços neutros de cooperação. Elas distribuem poder ao determinar procedimentos, categorias, critérios de participação, formas legítimas de conhecimento e agendas prioritárias. Quem participa de sua criação pode influenciar sua linguagem, seus mecanismos decisórios e a própria definição dos problemas que deverão ser enfrentados.
A criação da WAICO revela que a China procura não apenas desenvolver tecnologias, mas institucionalizar sua presença na governança internacional da inteligência artificial. O objetivo potencial é transformar capacidade tecnológica em autoridade normativa e influência duradoura.
Caso se consolide, a organização deverá integrar um complexo de regimes de inteligência artificial composto por instituições sobrepostas, complementares e parcialmente concorrentes. Nesse campo encontram-se a Organização das Nações Unidas, a UNESCO, a União Internacional de Telecomunicações, a OCDE, o G7, o G20, a União Europeia, o BRICS e diferentes iniciativas promovidas pelos Estados Unidos e por outras potências tecnológicas.
O resultado mais provável não é a formação de uma governança global única e uniforme. A tendência é a emergência de uma estrutura policêntrica, composta por múltiplas arenas nas quais diferentes atores disputarão autoridade, legitimidade e capacidade de estabelecer normas.
Essa multiplicidade poderá ampliar os espaços de participação dos países em desenvolvimento. Também poderá produzir fragmentação regulatória, competição entre padrões e pressões para que os Estados escolham entre ecossistemas tecnológicos parcialmente incompatíveis.
A institucionalização da IA será, portanto, simultaneamente uma disputa pela cooperação e uma disputa pela autoridade.
4. A inteligência artificial e as diferentes formas de poder internacional
A análise das consequências da inteligência artificial para a ordem internacional pode ser organizada a partir das diferentes formas de poder propostas por Michael Barnett e Raymond Duvall: poder compulsório, institucional, estrutural e produtivo.
Essa perspectiva permite superar uma compreensão restrita do poder como capacidade de obrigar diretamente outro ator a adotar determinado comportamento. O poder internacional também opera por meio das instituições, das posições ocupadas nas estruturas sociais e da produção dos significados que orientam a ação política.
A inteligência artificial atravessa todas essas dimensões.
4.1 Poder material e integração de capacidades complementares
A primeira dimensão é a capacidade material de desenvolver, treinar, adaptar e operar sistemas de inteligência artificial.
Essa capacidade depende da combinação de semicondutores avançados, energia, centros de dados, modelos, bases de dados, capital, profissionais especializados e infraestrutura de telecomunicações. Nenhum desses recursos, isoladamente, é suficiente para assegurar autonomia tecnológica.
Um Estado pode possuir minerais e energia, mas depender da importação de chips. Pode desenvolver modelos, mas utilizar serviços estrangeiros de nuvem. Pode controlar grandes bases de dados, mas não dispor da capacidade computacional necessária para processá-las. Pode instalar centros de dados em seu território, mas depender de empresas externas para operá-los e atualizá-los.
Por essa razão, a distribuição internacional do poder na inteligência artificial deve ser compreendida como uma distribuição desigual de capacidades complementares.
O poder não decorre apenas da posse de um recurso específico. Decorre da capacidade de integrar recursos diversos em um sistema relativamente autônomo de produção, operação e inovação.
Essa integração diferencia os países que participam da criação da infraestrutura daqueles que apenas contratam seus serviços.
4.2 Poder estrutural e definição das condições de acesso
O poder estrutural refere-se à capacidade de definir as condições dentro das quais outros atores precisam operar.
Na economia política da inteligência artificial, essa dimensão manifesta-se quando Estados ou empresas controlam plataformas de computação, padrões técnicos, sistemas operacionais, serviços de nuvem, modelos amplamente utilizados, mercados de componentes e mecanismos de certificação.
Um país pode conservar formalmente sua soberania política e, ao mesmo tempo, ter suas escolhas práticas condicionadas pelas decisões de fornecedores externos. Alterações em contratos, licenças, atualizações, políticas de acesso ou regras de utilização podem afetar diretamente o funcionamento de serviços públicos, empresas e centros de pesquisa.
A soberania formal não elimina a dependência infraestrutural.
O relatório preliminar do Painel Científico da ONU sobre Inteligência Artificial observa que a capacidade computacional, os modelos de propósito geral e as instituições de avaliação permanecem fortemente concentrados. Como consequência, muitos países utilizam tecnologias que não possuem capacidade para construir, inspecionar, modificar ou controlar plenamente.
A assimetria central não se encontra apenas entre quem possui e quem não possui inteligência artificial. Ela se estabelece entre quem consegue definir as condições de funcionamento dos sistemas e quem precisa adaptar suas políticas às condições definidas por terceiros.
4.3 Poder de rede e interdependência instrumentalizada
Henry Farrell e Abraham Newman demonstram que Estados situados em posições centrais das redes econômicas internacionais podem transformar a interdependência em instrumento de influência. O controle de determinados pontos de passagem permite observar fluxos, condicionar comportamentos ou restringir o acesso de outros atores.
Na economia internacional da inteligência artificial, esses pontos de estrangulamento podem incluir a fabricação de chips, as máquinas utilizadas na produção de semicondutores, os serviços globais de nuvem, os cabos e redes de telecomunicações, as lojas de aplicativos, as bibliotecas de software, os sistemas de pagamento, os minerais críticos e a energia necessária ao funcionamento dos centros de dados.
O poder tecnológico não decorre somente da posse do modelo mais avançado. Resulta também da posição ocupada nas redes necessárias para que outros atores desenvolvam e utilizem inteligência artificial.
Países e empresas situados nos principais nós dessas redes podem converter centralidade econômica em capacidade política. Podem condicionar o acesso, impor requisitos, recolher informações e produzir custos para atores considerados adversários.
O discurso de Xi responde a essa estrutura mediante uma estratégia de diversificação. A promoção de modelos chineses, instituições próprias, cooperação Sul-Sul e redes alternativas procura reduzir a exposição da China e de seus parceiros aos pontos de estrangulamento controlados por outras potências.
Não se trata apenas de conquistar mercados. Trata-se de diminuir vulnerabilidades e reorganizar as redes internacionais a partir das quais a tecnologia é produzida e distribuída.
4.4 Poder institucional e produção das regras
Países capazes de transformar suas preferências em normas internacionais não precisam negociar individualmente cada situação. Seus princípios passam a orientar o comportamento dos demais, definindo previamente o que será considerado legítimo, seguro ou aceitável.
A disputa pelos padrões internacionais da inteligência artificial envolverá questões como responsabilidade por danos, circulação transfronteiriça de dados, transparência dos modelos, propriedade intelectual, testes, certificações, interoperabilidade, vigilância e aplicações militares, policiais e administrativas.
A criação da WAICO procura ampliar a presença chinesa nessa dimensão. A China não pretende somente desenvolver tecnologias, mas participar da definição dos critérios pelos quais essas tecnologias serão avaliadas, classificadas e autorizadas.
Essa é uma dimensão decisiva da disputa contemporânea. Quem estabelece os padrões pode influenciar mercados, orientar investimentos e criar vantagens para suas próprias empresas e instituições.
A capacidade normativa transforma poder tecnológico em poder institucional.
4.5 Poder produtivo e disputa pelo significado da inteligência artificial
Há, finalmente, poder na capacidade de definir o significado político da inteligência artificial.
No discurso de Xi, a IA é representada como oportunidade histórica, instrumento de desenvolvimento, objeto de cooperação internacional e tecnologia que deve permanecer sob controle humano.
Essa representação disputa espaço com outras narrativas, nas quais a inteligência artificial aparece prioritariamente como ativo de segurança nacional, vantagem econômica privada, capacidade militar ou risco existencial.
As diferentes representações não são apenas descrições. Elas tornam determinadas políticas mais aceitáveis do que outras.
Se a IA for compreendida principalmente como questão de segurança nacional, controles de exportação, restrições de investimento e coalizões tecnológicas exclusivas ganham legitimidade. Se for compreendida como questão de desenvolvimento, tornam-se centrais o acesso, a capacitação, o financiamento e a transferência de tecnologia. Se for tratada como risco global, instituições de avaliação e mecanismos internacionais de controle adquirem maior importância.
O poder produtivo reside precisamente nessa capacidade de organizar o campo do possível: definir o problema, estabelecer os sujeitos autorizados a falar sobre ele e delimitar as soluções consideradas legítimas.
A disputa internacional pela inteligência artificial é, portanto, também uma disputa discursiva.
5. O Sul Global entre diversificação, dependência e autonomia
Para os países do Sul Global, a competição entre China e Estados Unidos pode ampliar opções diplomáticas. Governos podem negociar infraestrutura, capacitação, investimentos e acesso tecnológico com mais de um fornecedor.
A ampliação das ofertas, entretanto, não elimina a dependência. Ela modifica sua forma e pode permitir maior margem de negociação.
Um modelo aberto pode reduzir custos de acesso e adaptação, mas continuar exigindo chips, serviços de nuvem, atualizações e conhecimentos externos. Um centro de dados instalado no território nacional pode ampliar a capacidade local e, simultaneamente, permanecer sob controle operacional de uma empresa estrangeira. Um programa de capacitação pode formar especialistas nacionais, mas também integrá-los a um ecossistema tecnológico específico.
A presença física da infraestrutura não equivale, necessariamente, ao controle político e tecnológico sobre ela.
Por essa razão, é necessário distinguir quatro níveis de inserção na economia internacional da inteligência artificial.
O primeiro é o acesso, que permite utilizar sistemas desenvolvidos por terceiros.
O segundo é a capacidade, que permite adaptar, avaliar, operar e integrar esses sistemas às necessidades nacionais.
O terceiro é a autonomia, que pressupõe capacidade de substituir fornecedores, preservar escolhas estratégicas e definir prioridades próprias.
O quarto é o poder, entendido como capacidade de influenciar mercados, padrões, instituições e decisões internacionais.
O discurso chinês responde de maneira direta aos dois primeiros níveis, ao oferecer acesso e programas de capacitação. A passagem para a autonomia e para o poder, contudo, não poderá ser concedida por uma potência externa. Dependerá das políticas industriais, científicas, educacionais, energéticas e regulatórias adotadas pelos próprios países parceiros.
A cooperação internacional pode ampliar capacidades nacionais, mas também pode reproduzir especializações subordinadas. O resultado dependerá da capacidade dos Estados de utilizar a competição entre fornecedores para construir infraestrutura própria, formar profissionais, exigir transferência de conhecimento e preservar a possibilidade de diversificação futura.
A questão central para o Sul Global não é escolher de maneira abstrata entre China e Estados Unidos. É impedir que a inserção em qualquer um dos ecossistemas se reduza à condição de consumidor, fornecedor de recursos estratégicos ou território para instalação de infraestrutura controlada externamente.
Autonomia não significa isolamento tecnológico. Significa capacidade de cooperar sem perder a possibilidade de escolha.
6. Implicações para o Brasil
O Brasil aparece no discurso de Xi indiretamente por três vias principais: o BRICS, a CELAC e a cooperação chinesa com a América Latina.
Essa arquitetura pode ampliar as arenas nas quais o país participa da governança internacional da inteligência artificial. Em vez de atuar exclusivamente como receptor de normas produzidas nos Estados Unidos, na China ou na União Europeia, o Brasil pode buscar influência na definição de regras de circulação de dados, requisitos aplicáveis ao setor público, padrões de segurança e auditabilidade, sistemas multilíngues, proteção de direitos e infraestrutura pública digital.
Também existe espaço para formular posições próprias sobre a utilização da inteligência artificial em áreas como saúde, educação, agricultura, meio ambiente, segurança pública e administração estatal.
A posição brasileira não precisa ser binária. Uma estratégia de autonomia pode combinar cooperação com diferentes polos, preservação da interoperabilidade, diversificação de fornecedores e construção de capacidades científicas e infraestruturais nacionais.
Essa estratégia exige reconhecer que decisões aparentemente técnicas possuem consequências de longo prazo. A escolha de modelos, nuvens, bancos de dados, padrões de interoperabilidade e sistemas operacionais pode produzir dependências persistentes, mesmo quando o contrato inicial parece economicamente vantajoso.
Quanto mais integrada uma tecnologia estiver ao funcionamento do Estado, maiores serão os custos políticos, financeiros e administrativos de sua substituição.
Para o Brasil, a construção de poder na área de inteligência artificial dependerá menos de uma tentativa imediata de competir pela liderança em modelos de fronteira e mais do domínio de funções estratégicas. Entre elas estão a capacidade pública de computação, a expansão de centros de dados sustentados por infraestrutura energética adequada, a formação científica, a produção de dados de qualidade, a avaliação independente de sistemas e o desenvolvimento de modelos e aplicações em língua portuguesa.
Também será necessário construir capacidade estatal para contratar, auditar, adaptar e interromper o uso de tecnologias quando necessário.
No campo da saúde, por exemplo, não basta incorporar inteligência artificial ao Sistema Único de Saúde. É preciso assegurar que o Estado brasileiro disponha de condições para avaliar os sistemas, proteger os dados, verificar seus resultados, identificar vieses, exigir transparência e evitar que funções públicas essenciais se tornem dependentes de fornecedores que não estejam submetidos a controle adequado.
A infraestrutura pública digital e a inteligência artificial devem ser compreendidas como dimensões da capacidade estatal.
A participação brasileira em instituições internacionais também será decisiva. Caso o país não contribua para a formulação de padrões, poderá ser obrigado a escolher entre normas estabelecidas por terceiros, muitas vezes elaboradas a partir de realidades econômicas, linguísticas e institucionais distintas da brasileira.
O Brasil possui escala demográfica, capacidade científica, matriz energética, instituições públicas e inserção diplomática suficientes para disputar maior influência. A transformação desses recursos em poder, entretanto, dependerá de coordenação política, investimento continuado e definição de prioridades nacionais.
Possuir recursos não equivale a construir autonomia. Autonomia exige capacidade de integrá-los em uma estratégia.
Conclusão
O discurso de Xi Jinping apresenta uma concepção de ordem internacional na qual a inteligência artificial passa a integrar simultaneamente desenvolvimento, segurança, soberania e governança global.
Sua principal operação discursiva consiste em transformar uma disputa tecnológica entre grandes potências em uma questão mais ampla sobre participação internacional. A China procura apresentar-se não apenas como competidora dos Estados Unidos, mas como fornecedora de capacidades e articuladora institucional dos países do Sul Global.
A iniciativa procura converter tecnologia em relações políticas duradouras. Modelos abertos, programas de capacitação, centros de cooperação e novas instituições compõem uma estratégia voltada à formação de um ecossistema internacional no qual a China pretende exercer influência material, normativa e discursiva.
O impacto da inteligência artificial sobre as relações de poder entre os países ocorrerá em diferentes níveis. No plano material, decorrerá da concentração de infraestrutura, capital e conhecimento. No plano estrutural, manifestar-se-á na capacidade de definir as condições de acesso. No plano das redes, resultará do controle de fluxos e pontos de estrangulamento. No plano institucional, envolverá a produção de normas, padrões e organizações. No plano discursivo, dependerá da capacidade de estabelecer o significado legítimo da tecnologia e das políticas que deverão orientá-la.
A disputa internacional pela inteligência artificial não será decidida somente pela potência que possuir o modelo mais avançado. Será definida pela capacidade de construir o ecossistema mais abrangente: infraestrutura, padrões, mercados, parceiros, instituições e uma narrativa capaz de apresentar determinada forma de liderança como legítima e necessária.
Para os países do Sul Global, a ampliação das ofertas tecnológicas pode representar maior margem de negociação, mas não elimina o risco de dependência. A diferença decisiva estará entre utilizar tecnologias produzidas por terceiros e construir capacidade para avaliá-las, adaptá-las, substituí-las e submetê-las a prioridades nacionais.
A inteligência artificial reorganiza o poder porque altera as condições a partir das quais os Estados podem agir. Quem controla essas condições não controla apenas uma tecnologia. Participa da definição das possibilidades futuras da ordem internacional.



