A ratificação paraguaia do acordo com a União Europeia, em 17 de março, e o anúncio da Comissão Europeia, seis dias depois, de que a aplicação provisória da parte comercial começará em 1º de maio de 2026, dão ao Mercosul algo raro em sua trajetória recente, um fato concreto que desloca o bloco do terreno da promessa para o da execução. Depois de mais de duas décadas de negociação, o acordo começa finalmente a produzir efeitos, ainda que de forma parcial, seletiva e juridicamente calibrada. O último dos quatro fundadores do Mercosul concluiu sua aprovação, e Bruxelas decidiu não esperar pela conclusão integral de todas as etapas do processo para destravar o coração comercial do pacto.
O ponto mais interessante, porém, não é apenas o avanço do acordo, mas a forma desse avanço, nos casos mercosulino e europeu. O episódio mostra que o Mercosul segue funcionando como um arranjo de integração que só se move quando os governos nacionais decidem empurrá-lo. Não houve aqui nenhum automatismo institucional, houve decisão estatal, ratificação doméstica e cálculo político dos dois lados do Atlântico. A integração, nesse caso, não aparece como substituta da política, mas como sua continuação por outros meios. Isso ajuda a entender uma característica persistente do regionalismo sul-americano: ele pode até construir regras e mercados, mas continua dependente da vontade dos Executivos e da capacidade dos Estados de converter convergência diplomática em decisão interna. A integração avança, mas avança pela porta do intergovernamentalismo.
Também não é irrelevante o fato de que a União Europeia tenha decidido acelerar a aplicação provisória justamente num contexto de maior instabilidade geoeconômica. A própria Comissão apresenta o acordo como instrumento para remover barreiras, reforçar cadeias produtivas, ampliar exportações e sustentar empregos, ao mesmo tempo em que o insere na defesa de um comércio internacional baseado em regras. Em outras palavras, o acordo não é só uma abertura de mercado; é também uma resposta estratégica a um mundo mais protecionista, fragmentado e competitivo. Para a Europa, ele serve à diversificação de parceiros; para o Mercosul, oferece acesso ampliado, previsibilidade regulatória e a chance de reposicionar a região num comércio global cada vez mais atravessado por rivalidades estratégicas. O tratado, portanto, é simultaneamente econômico e geopolítico.
Mas o caráter provisório da entrada em vigor também diz muito sobre os limites do momento. O que começará em 1º de maio é a parte comercial do acordo, aplicada entre a UE e os membros do Mercosul que tiverem concluído seus procedimentos até o fim de março. Isso significa que o pacto ainda carrega contestação política na Europa e que sua implementação seguirá sendo fatiada, monitorada e politicamente disputada. Em vez de uma integração linear e triunfal, o que se vê é uma integração escalonada, juridicamente fragmentada e cuidadosamente administrada. Talvez seja essa a melhor imagem do regionalismo contemporâneo: ele não desapareceu, mas deixou de avançar por grandes saltos históricos. Agora progride por frestas, por aplicações provisórias, por compromissos parciais e por arranjos de geometria variável.



