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Maurício Kenyatta
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Morte de Ali Khamenei: Sucessão ou Mudança de Regime no Irã?

A ascensão de Mojtaba Khamenei após a morte de seu pai sinaliza mudança de regime ou continuidade? Uma análise sobre as regras de autoridade no Irã pós-ataque. A morte de Ali Khamenei e a posterior escolha de Mojtaba Khamenei para o posto de Líder Supremo recolocaram no centro do debate uma questão clássica da Ciência Política e das Relações Internacionais: afinal, a eliminação do principal dirigente de um sistema político equivale, por si só, à mudança de regime? A resposta, à luz da...

16 de março de 2026· 6 min de leitura
Morte de Ali Khamenei: Sucessão ou Mudança de Regime no Irã?

A ascensão de Mojtaba Khamenei após a morte de seu pai sinaliza mudança de regime ou continuidade? Uma análise sobre as regras de autoridade no Irã pós-ataque.

A morte de Ali Khamenei e a posterior escolha de Mojtaba Khamenei para o posto de Líder Supremo recolocaram no centro do debate uma questão clássica da Ciência Política e das Relações Internacionais: afinal, a eliminação do principal dirigente de um sistema político equivale, por si só, à mudança de regime? A resposta, à luz da literatura especializada e dos fatos observáveis no Irã até 13 de março de 2026, é negativa.

A distinção conceitual é decisiva. Svend-Erik Skaaning propõe entender regimes políticos a partir de quatro princípios definidores: caráter dos governantes, acesso ao poder, limites verticais ao poder e limites horizontais ao poder. Nessa chave, mudança de regime não é simples troca de ocupantes do mando, mas alteração das regras formais e informais que estruturam a autoridade política.

Esse ponto é importante porque o próprio discurso político da guerra foi mais ambicioso do que o resultado institucional observado. A retórica oficial da Casa Branca foi explícita ao apresentar a operação como esforço para derrubar o regime iraniano.

O problema é que o teste empírico de mudança de regime não se mede pela intensidade da retórica nem pela magnitude do dano militar, mas pela transformação das estruturas de autoridade. A Constituição iraniana estabelece que, após a morte do Líder, a tarefa de nomear o sucessor cabe à Assembleia dos Peritos. Foi exatamente isso que ocorreu: Mojtaba Khamenei foi escolhido pela Assembleia dos Peritos após a morte de seu pai. Ou seja, a sucessão se deu por dentro do mecanismo constitucional da República Islâmica, não contra ele.

A morte de Ali Khamenei não desorganizou o princípio ordenador do regime; ao contrário, acionou seu mecanismo de reprodução. A escolha de Mojtaba sugere reforço do núcleo duro do regime. O novo líder é apresentado como figura profundamente linha-dura, próxima do aparato coercitivo e inclinada a ampliar o peso da Guarda Revolucionária.

Há, inclusive, um paradoxo estratégico no resultado. Se o objetivo máximo da operação era remover o eixo de autoridade da República Islâmica, a sucessão de Mojtaba sinaliza o oposto: o sistema mostrou capacidade de continuidade sob ataque, convertendo a morte do líder anterior em narrativa de martírio e em justificativa para maior centralização.

A posição israelense reforça essa leitura. Em 12 de março, Benjamin Netanyahu reconheceu explicitamente que a guerra conjunta com os EUA poderia não levar ao colapso do governo clerical em Teerã. Mais do que isso, declarou que o regime precisaria ser derrubado de dentro.

O dado adicional das primeiras manifestações do novo líder também pesa contra a tese de transição. Mojtaba Khamenei não apareceu publicamente após a nomeação, suas primeiras falas foram lidas por um apresentador de TV, e o conteúdo conhecido dessas declarações foi de continuidade do conflito, com a manutenção do fechamento do Estreito de Ormuz.

Conclusão

A conclusão é clara: se o objetivo dos Estados Unidos era a mudança de regime no sentido adequado do termo, esse objetivo não foi alcançado até 13 de março de 2026. O que ocorreu foi a eliminação do líder anterior e sua substituição segundo as regras constitucionais da própria República Islâmica. Em termos acadêmicos, a formulação mais adequada é que houve sucessão intrarregime após uma operação de decapitação, e não transição de regime.

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