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Hegemonia e Minilateralismo Transacional: EUA, China e o Teste de Autonomia de Canadá e Reino Unido


Nas últimas semanas, dois movimentos em paralelo ajudam a entender o mesmo fenômeno estrutural. De um lado, a China vem sinalizando abertura e reaproximação seletiva com parceiros do Atlântico Norte, como o anúncio de um “novo tipo de parceria estratégica” com o Canadá, acompanhado de acordos concretos em áreas como comércio, agricultura e energia.  De outro, o governo Donald Trump respondeu a esses ensaios de aproximação com linguagem de risco e ameaça, classificando como “muito perigoso” o aprofundamento econômico entre Reino Unido e China e ampliando alertas ao Canadá por meio de ameaça tarifária.  Em paralelo, o lançamento do chamado Conselho da Paz no Fórum Econômico Mundial reforça a mesma tendência, com a promessa de “efetividade” via um arranjo mais fechado, transacional e hierárquico, e menos dependente dos freios do multilateralismo clássico. 


Pela lente neorrealista, não há mistério. Em um sistema anárquico, a potência dominante procura converter capacidades materiais em controle de ambiente estratégico, reduzindo margens de manobra de rivais e também disciplinando aliados quando percebem risco de “vazamento” para o outro polo. Em termos de teoria, isso conversa com a intuição de Estados Unidos como gestor de uma ordem que é menos “liberal” do que “hierárquica”, onde a interdependência vira instrumento de coerção e o alinhamento de aliados passa a ser uma variável de segurança, não só de comércio (Waltz, 1979; Mearsheimer, 2001; Lake, 2009). Vale a pena notar que o fim de uma ordem internacional liberal não necessariamente implica o fim da hegemonia norte-americana. Nesse caso, há mais uma troca de gramática, saindo do universalismo normativo para uma lógica mais explícita de esferas de influência, com custos distribuídos assimétricamente.


O Conselho da Paz entra aqui como tecnologia institucional. A leitura neorrealista tende a ver esse tipo de arranjo como mecanismo de minilateralismo que reduz veto e fricção, internaliza coordenação entre “membros confiáveis” e aumenta a capacidade de produzir resultados alinhados ao centro, inclusive por meio de incentivos e punições fora do campo estritamente militar. A própria arquitetura proposta, descrita por análises como altamente centralizada e personalizada, sinaliza um deslocamento da legitimidade “por regras” para a legitimidade “por performance” e por lealdade política. No Conselho da Paz, o dado mais revelador é quem aceita e quem hesita. Segundo levantamento público, cerca de 20 Estados assinaram a carta em Davos, entre eles o Canadá, enquanto o Reino Unido aparece como relutante, e países como China, Rússia, Índia e Brasil optaram por não aderir no mesmo momento. 


A dinâmica China–Canadá e China–Reino Unido ajuda a iluminar o jogo. A China tenta ampliar o alcance de suas relações econômicas em ambientes tradicionalmente ocidentais, oferecendo “parcerias” que, na prática, diminuem o isolamento e criam custos políticos para uma frente anti-China coesa. O documento conjunto sino-canadense fala explicitamente em aprofundar cooperação econômica e setorial e, por consequência, reduz a capacidade de Washington de impor um “cordão sanitário” sem gerar atrito com aliados.  No caso britânico, o encontro em Pequim e a narrativa de “relação estável e duradoura” apontam para uma estratégia de hedging. É uma tentativa de capturar ganhos econômicos sem abandonar o guarda-chuva de segurança ocidental, algo típico de potências médias em fases de competição sistêmica.


O contra-movimento americano, por sua vez, tem forma de coerção econômica e “securitização” do comércio. A sinalização de Trump de que acordos com a China podem ser “muito perigosos” e a associação dessa escolha a custos tarifários é um exemplo didático de como a hegemonia pode operar por linkage. Ela conecta economia, segurança e reputação em um único pacote, tornando o custo de “autonomia” mais alto até para aliados.  Para o neorrealismo, isso é coerente. Quando a disputa é por posição relativa, a hegemonia prefere prevenir a erosão do seu bloco antes que ela vire capacidade estratégica do rival.


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A leitura pelo Realismo da Autonomia Periférica (RAP), no entanto, muda a pergunta, porque desloca o foco do “equilíbrio global” para o problema de autonomia como capacidade incremental de escolha em condições de assimetria. A autonomia não é retórica multilateralista e nem “independência absoluta”. É reduzir vulnerabilidades e ampliar margem de manobra em três eixos, viabilidade nacional, permissibilidade internacional e autonomia técnico-empresarial.  O caso é pedagógico porque mostra que a pressão por alinhamento não recai só sobre periferias clássicas. Ela alcança até Estados com alta capacidade estatal, como Canadá e Reino Unido, sempre que suas decisões tocam a fratura central da ordem, que hoje é a competição EUA–China. Nesse sentido, o RAP ajuda a dizer algo incômodo. “Estar no centro” não elimina o custo de autonomia quando a hierarquia se torna mais explícita. Apenas muda a forma do custo e a capacidade de administrá-lo.


O Conselho da Paz, visto pelo RAP, funciona como teste de alinhamento e como mecanismo de seleção de quem terá acesso a canais, reputação e benefícios de participação, e quem ficará exposto a punições, isolamento ou enquadramento narrativo. É aqui que a pergunta prática emerge para países como o Brasil. Aderir pode reduzir custos de curto prazo se abrir portas ou evitar retaliações indiretas, mas pode também diminuir a autonomia líquida se implicar compromisso com uma governança personalizada, com mandato elástico e com regras de contribuição e disciplina definidas pelo centro.  O ponto decisivo, em RAP, é se a adesão amplia permissibilidade sem capturar a política externa, e se preserva espaço para recombinar parcerias no médio prazo.


O movimento americano indica que Washington está mais disposto a trocar o universalismo liberal por uma ordem de clube e por coerção econômica aberta, inclusive sobre aliados. A China tenta explorar as zonas cinzentas dessa coalizão, oferecendo ganhos econômicos seletivos e “normalização” com alguns países do bloco ocidental, sem que isso equivalha a uma aliança de segurança. A pergunta “quem aceita a hegemonia” passa menos por discursos e mais por sinais institucionais, como aderir ao Conselho, aceitar condicionalidades e tolerar linkage tarifário como instrumento legítimo.  Para atores periféricos, a lição RAP é pragmática. Se o mundo está ficando mais explícito em esferas e hierarquias, a autonomia real depende de construir redundâncias econômicas e tecnológicas, multiplicar canais diplomáticos e reduzir vulnerabilidades que tornem a coerção “barata”. Isso vale tanto para decidir entrar quanto para decidir ficar fora, e a decisão só é racional quando preserva opções, não quando compra sobrevivência com concessões permanentes.


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Referências


AYOOB, Mohammed. The Third World Security Predicament: State Making, Regional Conflict, and the International System. Boulder: Lynne Rienner, 1995.

LAKE, David A. Hierarchy in International Relations. Ithaca: Cornell University Press, 2009.

MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2001.

WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.



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