A crise do Irã em 2025–2026 sob o Realismo da Autonomia Periférica
- Maurício Kenyatta
- há 7 dias
- 17 min de leitura

Em janeiro de 2026, o Irã combina três vetores de vulnerabilidade com efeitos cumulativos: (i) erosão de legitimidade e base social, (ii) deterioração macroeconômica acelerada e (iii) encolhimento da margem externa de manobra em um ambiente de sanções, coerção e disputa regional. Esse triplo choque é especialmente relevante quando lido pela lente do Realismo da Autonomia Periférica (RAP), porque o RAP trata “autonomia” não como ideal normativo, mas como resultado político incremental da interação entre capacidades internas, permissividades externas e base tecnológica produtiva.
O ponto central desta análise é direto: a perda de apoio popular e a repressão violenta não são “apenas” um problema moral ou de governança; são um problema estratégico, pois corroem a viabilidade nacional e, por tabela, reduzem a permissibilidade internacional e travam a autonomia técnico-empresarial; isto é, diminuem a capacidade do Estado de impor custos, sustentar coalizões e preservar decisões soberanas sob pressão. Essa é precisamente a lógica do RAP.
1. O que é o Realismo da Autonomia Periférica (RAP)
O RAP é uma formulação realista “a partir da periferia” que preserva intuições do realismo (anarquia, incerteza, competição, centralidade do Estado e dilemas de segurança), mas troca o objetivo implícito do “grande poder” (hegemonia/primazia) por um objetivo racional periférico: aumentar autonomia relativa em uma ordem hierárquica.
Ele opera em três eixos (inspirados em Jaguaribe e retrabalhados na tradição autonomista):
1. Viabilidade nacional: coesão social mínima, legitimidade, capacidade estatal (fiscal, administrativa, coercitiva controlada), governabilidade e horizonte de projeto.
2. Permissibilidade internacional: espaço externo de manobra que deriva de estrutura de poder, alianças/coalizões, custo reputacional de coerção sobre você e densidade institucional/diplomática.
3. Autonomia técnico-empresarial: base produtiva, tecnologia, infraestrutura crítica, domínio de cadeias logísticas e energéticas, que é o “chão material” da autonomia.
A implicação analítica é decisiva, já que um Estado pode ter aparato coercitivo e ainda assim perder autonomia se a coerção destrói legitimidade e capacidade econômica; e pode ter petróleo e ainda assim ser vulnerável se o petróleo vira armadilha fiscal e brecha para interesses externos.
2. O “momento crítico” do Irã: o que parece sólido nas evidências públicas
Há convergência em análises e reportagens de que os protestos recentes ganharam escala após forte deterioração econômica e monetária, com mobilização social ampliada e resposta repressiva severa, incluindo prisões em massa e restrições de internet, o que dificulta verificação independente e estabiliza narrativas concorrentes.
Do ponto de vista externo, várias análises também relacionam a sensibilidade atual do regime à degradação de dissuasão e ao contexto pós-conflito/pressão de 2025, ainda que detalhes técnicos e estimativas variem entre fontes.
A seguir, a leitura do RAP não depende de assumir números exatos (mortes, detenções, câmbio), mas sim de mecanismos que expliquem a autonomia de uma nação, como legitimidade, capacidade estatal e margem de ação externa.
3. Viabilidade nacional: por que repressão e perda de apoio popular “custam autonomia”
No Realismo da Autonomia Periférica (RAP), a viabilidade nacional constitui o primeiro e mais decisivo gargalo da autonomia: é nela que se assentam a capacidade do Estado de governar com previsibilidade, mobilizar recursos, manter coesão mínima e sustentar um projeto estratégico de médio e longo prazo. À luz dessa moldura, a crise iraniana sugere uma inflexão relevante: o país parece deslocar-se de um padrão de contestação ainda “gerenciável”, em que o regime consegue amortecer choques combinando repressão seletiva, barganhas distributivas e controle institucional, para uma situação em que o custo de governar cresce mais rapidamente do que a capacidade do Estado de financiar e administrar esse custo. Essa dinâmica é central no RAP porque a autonomia externa não é concebida como atributo isolado do sistema internacional, mas como produto de um equilíbrio interno: quando a base doméstica se desorganiza, a margem externa de manobra se estreita.
Nessa perspectiva, a repressão pode funcionar como solução tática de curto prazo, ao reduzir a intensidade imediata da mobilização e impor barreiras à coordenação coletiva; contudo, ela tende a operar como derrota estratégica quando passa a substituir, de forma recorrente, mecanismos de governabilidade e consenso mínimo. Primeiro, porque encarece estruturalmente o controle interno: quanto maior a dependência da coerção, maior a necessidade de vigilância contínua, ampliação de aparato, incentivos materiais a unidades leais e policiamento de informação, o que pressiona a capacidade administrativa e fiscal do Estado e reduz sua eficiência. Em segundo lugar, porque a escalada repressiva intensifica dilemas intra-elite, elevando o risco de fratura em torno de sucessão, responsabilização e linhas vermelhas do uso da força. Em contextos de stress, a repressão pode até silenciar a rua, mas frequentemente desloca a disputa para dentro do regime, reordenando coalizões e gerando incentivos a defecções seletivas, busca de culpados e estratégias de autopreservação. Em terceiro lugar, e de forma particularmente importante, a repressão e a incerteza associada corroem a capacidade de mobilização econômica: comércio, cadeias logísticas, produção e circulação de serviços passam a operar sob medo e imprevisibilidade, com efeitos sobre arrecadação e investimento, isto é, sobre a própria capacidade do Estado de sustentar políticas públicas e manter o aparato que o mantém de pé.
O RAP também enfatiza que legitimidade é um recurso de poder, e não apenas uma categoria normativa. A legitimidade, interna e externa, reduz a percepção de ameaça, amplia coalizões disponíveis e aumenta o custo político da coerção contra o Estado periférico. Quando a resposta estatal se apoia em violência ampla, o regime tende a depreciar esse capital, perdendo capacidade de organizar consentimento doméstico e de sustentar narrativas críveis no ambiente internacional. Ademais, a reação de mecanismos de direitos humanos e a intensificação da cobertura internacional podem elevar o custo reputacional do regime; porém, há um efeito paradoxal que o RAP ajuda a capturar: a erosão de legitimidade pode também reduzir o custo político de pressões externas sobre o Estado, caso a coerção contra ele se torne mais facilmente “vendável” como estabilização, proteção de civis ou neutralização de ameaças. Em outras palavras, a legitimidade não apenas protege o Estado de constrangimentos internos; ela integra o cálculo externo de permissibilidade, modulando o quão “barata” ou “cara” se torna, para atores centrais, uma estratégia de coerção.
O resultado, em termos de RAP, é que quanto mais um regime governa por meio de coerção indiscriminada e quanto mais perde apoio social, mais ele converte uma crise política em crise de autonomia: o Estado pode permanecer formalmente de pé, mas tende a se tornar estrategicamente menor, com menos capacidade de mobilizar recursos, menos coalizões internas e externas disponíveis, e menos escolhas efetivas diante de pressões e oportunidades no sistema internacional.
4. Permissibilidade internacional: coerção, sanções, alianças e o dilema “protetor”
No Realismo da Autonomia Periférica (RAP), a permissibilidade internacional designa o espaço de manobra que a estrutura de poder e as preferências dos atores centrais permitem a um Estado periférico exercer. Em termos práticos, trata-se de responder a duas perguntas: quais comportamentos externos são tolerados, por quem, e a que preço; e, em sentido inverso, quais formas de coerção (sanções, isolamento, sabotagem, uso da força, captura financeira) se tornam politicamente “viáveis” contra o Estado-alvo. A permissibilidade, portanto, não é apenas um dado da anarquia, mas um produto da hierarquia: ela varia conforme reputação, alianças, utilidade econômica, capacidade de impor custos e, sobretudo, conforme o grau em que o Estado consegue reduzir a “vendabilidade” política da coerção contra si.
Nesse eixo, o Irã enfrenta um dilema externo clássico, intensificado por sanções e por sua própria crise interna: sua sobrevivência econômica depende de “canais estreitos” de financiamento e de escoamento energético. Diversas análises têm indicado que, sob regimes sancionatórios, o petróleo iraniano encontra na China um comprador decisivo, em geral operando por descontos, intermediações e mecanismos opacos de comercialização e pagamento. Essa arquitetura funciona como válvula de oxigênio, mas, do ponto de vista do RAP, ela simultaneamente cria um padrão de dependência estrutural: quando o Estado passa a depender de poucos compradores, rotas e mecanismos financeiros, ele reduz sua capacidade de escolha e de autonomia, o que é precisamente a capacidade de decidir com menor vulnerabilidade a mandos exógenos. A sobrevivência via canal estreito preserva o regime no curto prazo, mas tende a diminuir sua autonomia líquida no médio prazo, porque ele passa a negociar sob assimetria crescente e com menor poder de veto.
A crise doméstica amplia esse problema porque repressão interna reduz permissibilidade externa. Quando violações graves ganham visibilidade e se acumulam evidências de violência sistemática, três dinâmicas tendem a se reforçar. A primeira é o aumento da pressão por isolamento e por medidas de punição, seja em fóruns multilaterais, seja por coalizões ad hoc. A segunda é a ampliação de justificativas políticas para medidas coercitivas, pois a coerção passa a ser apresentada como resposta “necessária” a um regime que perdeu legitimidade e que produz instabilidade regional. A terceira é a retração de apoios ambíguos, como parceiros que poderiam preferir estabilidade a baixo custo — mantendo relações seletivas, tolerando transações ou oferecendo proteção diplomática limitada — tendem a recuar quando o custo reputacional e o risco político de “bancar” o regime sob contestação aumentam. Do ponto de vista do RAP, isso é decisivo porque a permissibilidade é parcialmente mediada por reputação e pela facilidade com que atores externos conseguem justificar a coerção perante seus públicos e instituições. Quanto mais a repressão destrói capital de legitimidade, mais “barata” se torna a coerção.
Nesse contexto, costuma surgir a pergunta estratégica: alinhar-se a uma potência recupera autonomia? A resposta do RAP é condicional. Alianças e alinhamentos podem, em tese, ampliar a permissibilidade se aumentarem os custos de coerção contra o Estado-alvo, criando uma espécie de dissuasão política ou material. Contudo, em configurações altamente assimétricas, o alinhamento tende a se converter em proteção condicionada: a potência “protetora” não oferece suporte gratuito; ela impõe cláusulas explícitas ou implícitas, como concessões econômicas, prioridades estratégicas, restrições diplomáticas, dependência tecnológica e, muitas vezes, captura parcial de ativos e decisões, que é o que tem acontecido no caso do Irã em relação a China e a Rússia. Para o Estado periférico, isso pode ser racional como estratégia de sobrevivência no curto prazo, mas frequentemente resulta em autonomia menor no médio prazo, sobretudo quando a viabilidade nacional está em erosão e a capacidade de barganhar internamente e externamente se enfraquece. Em síntese, pelo RAP, a aliança é útil quando eleva o custo da coerção sem capturar a política; quando ela se converte em tutela, ela preserva o regime, mas reduz a autonomia estratégica, isto é, troca-se margem de decisão por proteção, e a permissibilidade obtida é, ela mesma, uma permissão emprestada. O Irã perde com o guarda-chuvas chinês ou russo, que como já sabemos também não irá bancar o regime à qualquer custo.
5. Autonomia técnico-empresarial: energia como ativo e armadilha
O terceiro eixo do Realismo da Autonomia Periférica (RAP), a autonomia técnico-empresarial, é particularmente útil para compreender por que petróleo e gás podem, ao mesmo tempo, fortalecer e enfraquecer a autonomia estratégica de um Estado periférico. Nesse enquadramento, autonomia não significa autarquia; significa possuir capacidade interna mínima e sustentável para produzir, manter e adaptar tecnologias críticas, reduzir dependências em gargalos estratégicos e evitar que a inserção externa se converta em tutela. A economia de hidrocarbonetos, nesse sentido, é um caso-limite: ela fornece poder material imediato (divisas, financiamento estatal, poder de barganha), mas pode cristalizar vulnerabilidades estruturais quando o acesso ao mercado e à tecnologia é controlado por terceiros.
A utilidade do petróleo como “apólice” é relativamente direta, ou seja, a renda energética gera divisas, sustenta importações essenciais, financia políticas distributivas e preserva o funcionamento do aparato estatal, inclusive suas capacidades de segurança, inteligência e controle territorial. Para regimes sob pressão econômica, petróleo e gás tendem a operar como “colchão” de sobrevivência, reduzindo o risco de colapso fiscal e permitindo ao Estado comprar tempo político. No vocabulário do RAP, trata-se de um recurso que pode fortalecer a viabilidade nacional ao financiar governabilidade e evitar rupturas abruptas de capacidade estatal, especialmente em conjunturas de choque monetário, inflação e restrições externas.
O problema, porém, é que a mesma estrutura pode transformar-se na “chave do cadeado”. Em contextos sancionatórios, com gargalos tecnológicos e restrição de financiamento, o setor energético deixa de ser apenas fonte de autonomia e passa a ser mecanismo externo de controle. Isso ocorre quando a exportação se torna dependente de poucos compradores, de rotas e seguradoras específicas, de intermediários e canais de pagamento vulneráveis, e quando o preço e o volume são definidos sob descontos e condições impostas pela assimetria de poder. Nesse arranjo, o petróleo não é apenas renda, ele se torna uma armadilha, ou o que chamamos de “faca de dois gumes”, pelo qual atores externos podem modular receita, acesso a moeda forte e capacidade de investimento. O resultado é um paradoxo típico do RAP: a energia sustenta o Estado, mas também concentra sua vulnerabilidade, porque transforma interdependência em alavanca e torna a autonomia sensível a decisões tomadas fora do país.
Esse dilema se agrava quando a economia energética opera sob limitações persistentes de modernização e difusão tecnológica. A autonomia técnico-empresarial exige mais do que extrair e vender: demanda capacidade de manter infraestrutura, refinar, petroquimizar, desenvolver equipamentos e software, operar logística e reduzir a dependência de insumos críticos. Quando sanções e restrições tecnológicas impedem a atualização do parque industrial, e quando o investimento doméstico não compensa essas perdas, o setor energético pode entrar num ciclo de depreciação e baixa produtividade, reduzindo o excedente disponível para diversificação e desenvolvimento. Em termos do RAP, trata-se do cenário em que a renda de commodities preserva a sobrevivência, mas não constrói “escadas” tecnológicas; a autonomia permanece “de fluxo”, não “de estrutura”.
A dimensão tecnológica também incide diretamente sobre a dissuasão. A literatura realista mostra que dissuasão depende de credibilidade, ou seja, não basta desejar retaliar; é preciso capacidade efetiva, resiliente e, idealmente, com redundâncias que elevem a incerteza do adversário quanto ao sucesso de uma ação coercitiva. No caso iraniano, avaliações públicas após 2025 têm discutido limites e perdas de capacidades estratégicas, convencionais e associadas ao programa nuclear e seus vetores, e como isso altera o cálculo de risco e custo para atores externos. Independentemente das divergências técnicas entre fontes sobre extensão e reversibilidade desses danos, a implicação central do RAP é clara: quando a capacidade tecnológica soberana é degradada e não há redundância crível, a coerção externa tende a ficar mais “barata”. Isto é, aumenta a permissibilidade para sanções mais duras, para ataques limitados, para sabotagem e para exigências políticas, porque o Estado-alvo passa a ter menos meios para impor custos ou sustentar uma escalada.
Em síntese, o eixo da autonomia técnico-empresarial ajuda a reorganizar o diagnóstico: petróleo e gás podem ser ativos de poder apenas enquanto alimentarem um projeto de capacidades, como industriais, tecnológicas e logísticas, capaz de reduzir dependências e ampliar opções estratégicas. Quando a energia se converte em renda concentrada sob controle indireto externo e sem transbordamentos tecnológicos internos, ela opera como armadilha estrutural ao manter o Estado funcionando, mas com sua capacidade de escolha limitada, o que reduz sua dissuasão e, por consequência, comprime sua autonomia.
6. Direitos humanos e dimensão humanitária: por que isso é parte da análise de poder
No Realismo da Autonomia Periférica (RAP), direitos humanos e a dimensão humanitária não entram como “apêndice moral”, mas como variáveis estratégicas que afetam, simultaneamente, capacidade estatal, custos de governar e permissibilidade internacional. Em termos analíticos, a questão central não é apenas se a repressão é “legítima” ou “ilegítima” (embora isso importe no plano jurídico), mas como a violência estatal, a erosão de garantias e o colapso de serviços alteram o balanço entre coerção e governabilidade, e, portanto, a autonomia efetiva do Estado.
No plano interno, a repressão ampla pode funcionar como solução tática para “baixar a temperatura” das ruas, porém tende a produzir perdas estratégicas cumulativas. Primeiro, ela encarece o controle, pois a manutenção da ordem passa a exigir mais vigilância, mais unidades mobilizadas, mais lealdade (comprada ou não) da cadeia de comando e mais recursos desviados de funções administrativas e econômicas, o que reduz eficiência governamental e deteriora a capacidade estatal. Segundo, a repressão em larga escala corrói previsibilidade e cooperação social, afetando comércio, logística e produtividade, ampliando incerteza e reduzindo arrecadação, com impacto direto na sustentação do próprio aparato que reprime. Terceiro, ela intensifica o risco de radicalização e de fraturas intra-elite, porque o aumento do custo humano e reputacional reorganiza incentivos: setores do regime disputam responsabilização, sucessão e linhas vermelhas de violência, enquanto grupos sociais antes “neutros” podem migrar para uma oposição mais dura, elevando o custo marginal de qualquer governabilidade mínima.
No plano externo, o RAP lê o “capital de legitimidade” como recurso de poder: reputação, credibilidade e aderência a compromissos (inclusive humanitários) podem reduzir percepção de ameaça, facilitar coalizões e tornar a coerção contra o regime politicamente mais custosa para atores centrais. Quando violações graves ganham visibilidade, como mortes, detenções arbitrárias, risco de tortura e desaparecimentos, entre outras, esse recurso se deprecia e a permissibilidade para medidas coercitivas tende a crescer. Em janeiro de 2026, o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos registrou preocupação com relatos de violência durante protestos e, de modo especialmente relevante para a análise de poder, com a imposição de apagões nacionais de internet e comunicações, destacando que tais medidas afetam liberdade de expressão e acesso à informação, dificultam monitoramento independente e podem interromper serviços essenciais e de emergência. Essa combinação de violência + blackout informacional costuma produzir um efeito duplo, o aumento do custo reputacional do regime e, ao mesmo tempo, a redução do custo político da coerção externa contra ele. Desse modo, a coerção se torna “vendável” como estabilização, proteção de civis ou contenção de riscos regionais.
A dimensão humanitária, portanto, não é apenas consequência colateral. Ela reorganiza incentivos domésticos e internacionais. Organizações de direitos humanos também apontaram que respostas estatais com dispersões violentas e prisões em massa elevam risco de tortura e maus-tratos, o que tende a alimentar ciclos de contestação e reforçar pressões por isolamento e responsabilização. Para o RAP, o resultado estratégico é que quando o Estado governa crescentemente por força indiscriminada, ele pode preservar a sobrevivência imediata do regime, mas frequentemente o faz ao preço de encolher sua autonomia real, isto é, permanece de pé, porém com menos capacidade, menos coalizões, menos margem de manobra e maior vulnerabilidade a coerção externa.
7. Quatro cenários prospectivos (RAP) e rotas plausíveis de (re)construção de autonomia
A utilidade prospectiva do Realismo da Autonomia Periférica (RAP) é organizar cenários não pela “dramaticidade” do evento (queda, intervenção, arma nuclear), mas pelo que realmente define autonomia para um Estado periférico: o equilíbrio entre viabilidade nacional (capacidade estatal + coesão + governabilidade), permissibilidade internacional (margem externa de manobra) e autonomia técnico-empresarial (capacidade produtiva/tecnológica e resiliência material). Nessa chave, o Irã pode “sobreviver” e ainda assim perder autonomia; pode “mudar” e ainda assim permanecer tutelado; ou pode, sob condições difíceis, reconstruir autonomia incremental. Os quatro cenários abaixo foram construídos para avaliar, de forma comparável, manutenção do regime com baixa autonomia, manutenção com autonomia parcial, manutenção com autonomia ampliada, e fim do regime com transição orientada à recuperação de autonomia.
No Cenário 1, há manutenção do regime sem autonomia (ou autonomia residual), caracterizada por um Estado-guarnição que sobrevive sobretudo pela força, pelo controle informacional e por uma economia de sobrevivência. Nessa hipótese, o regime preserva o comando coercitivo, mas paga um preço alto e crescente: a viabilidade nacional continua a degradar porque o custo de governar aumenta (repressão permanente, lealdades compradas, paralisia produtiva, fuga de capitais e erosão fiscal). Externamente, a permissibilidade estreita, pois violações internas ampliam isolamento e tornam a coerção “politicamente vendável” por terceiros, enquanto a autonomia técnico-empresarial tende a depender de contrabando, importações e poucos canais energéticos. A “rota” RAP para evitar autonomia em queda contínua, aqui, exigiria reduzir a erosão interna com descompressão mínima e previsibilidade jurídica, recomposição fiscal e algum grau de normalização econômica; sem isso, a sobrevivência do regime vem acompanhada de escolhas cada vez mais estreitas.
No Cenário 2, há manutenção do regime com autonomia parcial, por meio de um ajuste pragmático: o regime preserva o núcleo do poder, mas adota reformas seletivas e barganhas externas para ampliar a margem de manobra sem abrir mão do controle. Do ponto de vista do RAP, isso pode interromper a hemorragia de viabilidade nacional (menos custo de controle, mais previsibilidade econômica) e melhorar permissibilidade internacional de maneira limitada (alívio parcial de isolamento, canais financeiros mais estáveis, redução do incentivo externo à coerção), sem, contudo, reconstruir plenamente legitimidade e capacidade estatal. A autonomia técnico-empresarial melhora apenas na medida em que a reinserção libere investimentos e tecnologia em setores críticos, mas permanece vulnerável se a economia seguir excessivamente dependente de poucos compradores e rotas energéticas. A rota de autonomia, aqui, é incremental e condicional: estabilização interna suficiente para “comprar tempo”, abertura econômica calibrada e medidas anticrise que reduzam o “ponto único de falha” energético e financeiro.
No Cenário 3, há manutenção do regime com autonomia ampliada, em que a sobrevivência do regime depende de uma reforma mais profunda, ainda que controlada, capaz de recompor governabilidade e reinserção externa de forma mais consistente. Em linguagem RAP, trata-se de transformar sobrevivência coercitiva em governabilidade funcional: reduzir o custo de governar (viabilidade), ampliar permissibilidade por meio de compromissos externos verificáveis e reconstruir autonomia técnico-empresarial com estratégia de investimento e diversificação produtiva. Este é o cenário em que “alianças” e “acordos” podem aumentar autonomia, desde que não se convertam em tutela: o objetivo é ampliar custos de coerção contra o país sem capturar sua política econômica e externa. Aqui, o núcleo analítico é que autonomia ampliada exige, inevitavelmente, recompor a base interna antes de aspirar dissuasão externa: sem capacidade estatal e contrato social minimamente estável, qualquer ganho externo tende a ser frágil.
No Cenário 4, ocorre o fim do regime e uma transição orientada à recuperação de autonomia, com a ressalva decisiva de que a transição só produz autonomia se for governável. O RAP distingue transição “em tese” de transição “capaz”: se a mudança vier acompanhada de fragmentação, disputa territorial e colapso administrativo, a autonomia cai (por depender de ingerência externa e por perder capacidade material). Por isso, o cenário de recuperação de autonomia pressupõe pacto mínimo de reconstrução estatal, normalização gradual de inserção externa para recuperar investimento e tecnologia, e uma estratégia de resiliência que reduza vulnerabilidades de energia, comunicações, logística e finanças. A pergunta “a arma nuclear recupera autonomia?” aparece aqui como tentação estratégica, mas o RAP trata isso como aposta de alto risco: pode elevar dissuasão em abstrato, porém frequentemente reduz autonomia líquida se o custo externo (sanções, sabotagem, isolamento tecnológico e ataques preventivos) superar os ganhos, sobretudo quando a viabilidade nacional está corroída. Assim, o eixo da recuperação de autonomia é menos “movimento genial” e mais reconstrução sustentada de capacidades e permissibilidade.
Quadro 1 – Cenários prospectivos (RAP) e rotas de autonomia para o Irã
Cenário (RAP) | Configuração política | Viabilidade nacional | Permissibilidade internacional | Autonomia técnico-empresarial | Nível de autonomia | Rota RAP de autonomia |
1. Regime sem autonomia (Estado-guarnição) | Sobrevivência pela força e controle informacional | Degrada (custos de controle crescentes) | Estreita (isolamento e coerção mais permissiva) | Dependente (poucos canais + opacidade) | Baixa/decrescente | Descompressão mínima + previsibilidade + recomposição fiscal + normalização gradual |
2. Regime com autonomia parcial (ajuste pragmático) | Reformas seletivas e barganha externa limitada | Estabiliza parcialmente | Melhora limitada (alívio parcial) | Melhora parcial (investimento pontual) | Parcial | Reduzir “pontos únicos de falha” (energia/finanças) + diversificação prudente + resiliência |
3. Regime com autonomia ampliada (reforma pactuada) | Reforma controlada com reinserção externa consistente | Recompõe governabilidade | Amplia (custos de coerção sobem) | Reconstrói capacidades (infra/tecnologia) | Média/alta | Reinserção verificável + estratégia industrial/tecnológica + instituições estáveis |
4. Fim do regime com recuperação de autonomia (transição governável) | Transição pactuada e reconstrução institucional | Reconstituída (se houver pacto e Estado funcional) | Pode ampliar (se estabilizar e negociar reinserção) | Pode acelerar (se abrir investimento e tecnologia) | Variável; pode recuperar | Pacto social + reconstrução estatal + normalização externa + diversificação e upgrading tecnológico |
Fonte: elaboração própria.
Em síntese, o ajuste central que o RAP impõe à análise é este: autonomia não é sinônimo de “sobreviver”, nem de “ter um trunfo estratégico” isolado; autonomia é a resultante de bases internas governáveis, margem externa de manobra e capacidade material/tecnológica suficiente para reduzir dependências críticas. Por isso, tanto “repressão total” quanto “nuclearização como atalho” tendem a produzir, com frequência, sobrevivência sob autonomia decrescente; e tanto uma “aliança salvadora” quanto uma “mudança de regime” podem gerar tutela, se não houver reconstrução de viabilidade nacional e de autonomia técnico-empresarial.
Aplicado ao Irã em janeiro de 2026, o Realismo da Autonomia Periférica (RAP) converge para o diagnóstico de que a repressão ampla pode prolongar a sobrevivência do regime e, ao mesmo tempo, reduzir a autonomia do Estado. Ao elevar o custo de governar, a violência estatal deteriora a eficiência administrativa, amplia a incerteza econômica e pressiona as bases fiscais; ao radicalizar o conflito interno, aumenta incentivos à fratura intra-elite e à disputa antecipada por sucessão e “culpabilização”; e, ao corroer capital de legitimidade, estreita a permissibilidade internacional, tornando mais baratos, politicamente e operacionalmente, mecanismos externos de coerção, isolamento e condicionamento. Em paralelo, a dependência de canais estreitos para escoamento energético e acesso a tecnologia aprofunda uma assimetria estrutural: o petróleo funciona como ativo de sobrevivência, mas também como mecanismo de vulnerabilização quando sanções, gargalos logísticos e concentração de compradores convertem a renda energética em instrumento de controle externo.
Do ponto de vista estratégico, portanto, “retomar autonomia” não se confunde com “escalar força”. A autonomia é a capacidade de escolha sob constrangimentos, e a escolha só existe quando o preço da coerção externa é alto, a governabilidade interna é minimamente sustentável e a base material reduz dependências críticas. Isso implica três prioridades encadeadas. Primeiro, recompor a viabilidade nacional ao reduzir o custo marginal de governar por meio de previsibilidade institucional, descompressão política mínima e reconstituição de capacidade fiscal e administrativa, de modo a interromper a espiral em que controle coercitivo substitui governança. Segundo, ampliar permissibilidade internacional ao multiplicar canais diplomáticos e reduzir a “vendabilidade” da coerção contra o país, por meio de sinalizações verificáveis e de uma estratégia de legitimidade entendida como recurso de poder, não como moralismo, mas como elevação de custos políticos para medidas coercitivas. Terceiro, reconstruir autonomia técnico-empresarial ao diversificar rotas, parceiros e setores, criar redundâncias em infraestrutura crítica e reduzir gargalos tecnológicos que transformam energia e finanças em pontos únicos de falha.
Em síntese, sugere-se que a autonomia iraniana, sob qualquer arranjo político, dependerá menos de um “atalho” (repressão total, alinhamento total ou aposta de dissuasão isolada) e mais de uma engenharia incremental de poder que envolve reconstruir governabilidade para, então, reabrir margem externa e recuperar base material. Sem viabilidade, permissibilidade e autonomia técnico-empresarial, a sobrevivência do regime pode ser apenas a continuidade de um Estado mais limitado, mais dependente e, portanto, menos autônomo.




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