Realismo da Autonomia Periférica: Repensando o Poder do Brasil a partir do Sul Global
- Maurício Kenyatta
- 10 de dez. de 2025
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Pensar um “realismo a partir do Sul Global” implica questionar quem é o sujeito típico da teoria realista e de que lugar ele fala. Em Morgenthau, Waltz e Mearsheimer, o protagonista é quase sempre a grande potência ou, no limite, o conjunto das potências centrais (Morgenthau, 1948; Waltz, 1979; Mearsheimer, 2001). A anarquia, o dilema de segurança e a maximização de poder são formulados a partir de trajetórias marcadas por elevada capacidade militar, tecnológica e financeira. Quando se toma o Brasil como estudo de caso, essa gramática se altera de modo decisivo: trata-se de uma potência média periférica, inserida em um sistema internacional hierarquizado, atravessado por dependências econômicas, tecnológicas e financeiras.
Autores como Ayoob (2002) e Escudé (2012) mostram que, para Estados periféricos, a sobrevivência está ameaçada tanto “de dentro” quanto “de fora”: construção estatal incompleta, conflitos de legitimidade, desigualdades extremas e vulnerabilidade externa redefinem o conteúdo de segurança. Em vez de perguntar como maximizar poder para buscar hegemonia, a questão passa a ser como construir e preservar autonomia sob constrangimentos estruturais severos. O ponto de partida deste artigo é que o realismo só se torna realmente “realista” para o Sul Global quando reconhece a posição periférica como variável constitutiva da teoria, e não apenas como caso empírico ilustrativo.
1. Realismo clássico, estrutural e neoclássico vistos da periferia
No realismo clássico, Morgenthau define a política internacional como luta pelo poder, sintetizada na ideia de “interesse definido em termos de poder” (Morgenthau, 1948). Waltz desloca o foco da natureza humana para a estrutura do sistema, argumentando que a anarquia e a distribuição de capacidades explicam os padrões de conflito e de cooperação (Waltz, 1979). Mearsheimer (2001) radicaliza esse movimento, propondo o realismo ofensivo: grandes potências tenderiam a buscar hegemonia regional como forma mais robusta de autoproteção, em contexto de incerteza e desconfiança.
Esses modelos têm grande poder explicativo para rivalidades entre potências centrais, mas encontram limites quando aplicados diretamente ao Brasil. O país não dispõe de meios militares, tecnológicos e financeiros para sustentar um projeto de hegemonia regional sem gerar contrabalanceamentos potencialmente insustentáveis. Ao mesmo tempo, sua agenda de segurança é atravessada por vulnerabilidades internas e assimetrias estruturais pouco contempladas no foco tradicional em conflitos interestatais.
O realismo neoclássico, sistematizado por Rose (1998), abre espaço para incorporar essa complexidade ao combinar variáveis sistêmicas com fatores domésticos. Zakaria (1998) mostra que o poder relevante é aquele que o Estado consegue organizar e projetar, não a simples soma de recursos. Glaser (2010), por sua vez, demonstra que, em muitas configurações, a cooperação limitada e arranjos institucionais são escolhas racionais para aumentar segurança e reduzir custos, sobretudo para Estados que não podem competir militarmente com as grandes potências. Para o Brasil, isso significa que a estratégia realista mais plausível passa menos por “hegemonia regional” e mais pela conversão de potencial em capacidade estatal efetiva, pela cooperação seletiva e pela exploração criativa de instituições regionais e globais.
2. Realismos da periferia e Escola da Autonomia
Ayoob (2002) formula o realismo subalterno a partir do Terceiro Mundo, recolocando a centralidade da vulnerabilidade e da construção estatal. Escudé (2012), com o realismo periférico, enfatiza o custo desproporcional de confrontos abertos com o centro e a racionalidade de estratégias de acomodação assimétrica, ainda que o risco seja naturalizar a dependência. Ambos convergem ao mostrar que o “ponto ótimo” de racionalidade estratégica na periferia é diferente daquele das grandes potências.
A tradição autonomista latino-americana oferece um passo adiante ao articular esse diagnóstico com um programa político de longo prazo. Jaguaribe (2008; 2013) propõe uma visão estratificada da ordem internacional (supremacia global, supremacia regional, autonomia, periferia) e define autonomia como capacidade de conduzir um projeto próprio de desenvolvimento com baixa vulnerabilidade a mandos exógenos. Três eixos estruturam a passagem da periferia à autonomia: viabilidade nacional, permissibilidade internacional e autonomia técnico-empresarial. Granato e Menger (2020) mostram como essa concepção segue poderosa para pensar a América Latina contemporânea, articulando desenvolvimento, inserção externa e estrutura de poder.
Puig (1980), com a ideia de “autonomia heterodoxa”, e Furtado (1961), ao evidenciar a especificidade do subdesenvolvimento, reforçam essa intuição: não há autonomia externa sem transformação interna da estrutura produtiva e tecnológica. No caso brasileiro, a literatura sobre política externa – de Cervo e Bueno (2012) a Saraiva (2014) e Vigevani e Cepaluni (2007) – identifica a busca de autonomia como fio condutor histórico, ainda que modulada por diferentes estratégias, da “autonomia pela distância” à “autonomia pela participação”.
3. Cooperação Sul–Sul, legitimidade e justiça global como estratégia realista
Quando o Brasil aposta no fortalecimento do MERCOSUL, na criação da UNASUL, na articulação IBAS/BRICS/G-20 comercial ou na defesa de reformas no Conselho de Segurança da ONU, é possível ler esses movimentos como soft balancing contra o unilateralismo das grandes potências (Mearsheimer, 2001). Mas, com Goddard (2018), é possível ir além: ao se apresentar como defensor de justiça global, combate à fome, redução da desigualdade e democratização da governança internacional, o país constrói uma narrativa de legitimidade que procura, ao mesmo tempo, reduzir a percepção de ameaça e ampliar sua capacidade de agenda.
Normas e discursos, nessa chave, não são ornamentos, mas recursos de poder. A defesa de “autonomia pela participação” em regimes e instituições (Vigevani; Cepaluni, 2007) pode ser entendida como tentativa de converter capital normativo e institucional em ganhos de permissibilidade internacional e em margens adicionais de autonomia periférica. Em termos jaguaribianos, trata-se de abrir “novas escadas” de desenvolvimento – bancos de fomento, cooperação tecnológica Sul–Sul, arranjos financeiros alternativos – em um sistema no qual as escadas tradicionais foram erigidas e em parte fechadas pelos centros.
4. Realismo da Autonomia Periférica: síntese conceitual
A partir dessa articulação, o artigo propõe o conceito de Realismo da Autonomia Periférica. A proposta preserva o núcleo duro do realismo – anarquia, centralidade do Estado, importância das capacidades materiais e prudência estratégica – mas redefine o objetivo racional de potências médias periféricas. Em vez de buscar hegemonia regional, trata-se de maximizar autonomia periférica, entendida como capacidade de reduzir vulnerabilidades internas e externas, manter margem de decisão relativamente independente e participar da definição das normas e instituições que regulam o sistema (Ayoob, 2002; Jaguaribe, 2008; Escudé, 2012).
Três eixos sintetizam essa racionalidade:
Viabilidade nacional – coesão política, capacidade estatal e inclusão social mínimas para sustentar um projeto de longo prazo;
Permissibilidade internacional – janelas de oportunidade abertas pela estrutura de poder, ampliáveis por cooperação, coalizões e narrativas de legitimidade (Glaser, 2010; Goddard, 2018);
Autonomia técnico-empresarial – estrutura produtiva e tecnológica capaz de reduzir dependências estratégicas (Furtado, 1961; Jaguaribe, 2013).
O Estado aparece, em linha com Zakaria (1998), como mediador decisivo entre recursos e poder: sem burocracias capazes, consensos mínimos e orientação de longo prazo, o Brasil permanece “potência de recursos”, mas não de organização. Cooperação regional e Sul–Sul, por sua vez, não são gestos idealistas, mas instrumentos racionais para construir base material de poder e ampliar legitimidade em contexto de forte assimetria.
Por fim, o Realismo da Autonomia Periférica assume explicitamente um incrementalismo estratégico: reconhece que as trilhas clássicas de ascensão (industrialização precoce, expansão territorial, corrida armamentista) foram em boa medida fechadas pelas potências centrais, mas recusa tanto o voluntarismo quanto a resignação.
A ampliação de autonomia periférica é pensada como resultado de acumulações graduais em viabilidade nacional, permissibilidade internacional e autonomia técnico-empresarial, articuladas a disputas normativas e institucionais por maior justiça e democratização da ordem liberal (Mearsheimer, 2018).
Considerações finais
O debate sobre se o Realismo é “realista” para o Brasil não se resolve pela rejeição da tradição realista, mas pela sua reformulação a partir da periferia. O Realismo da Autonomia Periférica procura justamente reespecificar a racionalidade realista em função da posição periférica: em vez de medir o sucesso da política externa pela aproximação a um ideal de hegemonia, propõe avaliá-la pela contribuição efetiva que dá ao avanço, ainda que incremental, em viabilidade nacional, permissibilidade internacional e autonomia técnico-empresarial.
Ao articular poder, desenvolvimento, integração regional e justiça global em um mesmo quadro, essa perspectiva permite pensar a inserção internacional do Brasil sem ilusões voluntaristas, mas também sem resignação à condição periférica. Trata-se de um Realismo que olha de frente para as assimetrias e para o fechamento parcial das escadas tradicionais de poder, mas que aposta na construção de novos caminhos – produtivos, regionais e normativos – em uma ordem internacional historicamente desenhada para dificultá-los.
Referências
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