Quando a Moda Vira Geopolítica: Bad Bunny no Super Bowl e a Autonomia como Estética
- Maurício Kenyatta
- 10 de fev.
- 4 min de leitura
Um halftime show pode ser só entretenimento. Mas, às vezes, ele é também uma disputa por pertencimento, narrativa e poder — vestida, coreografada e transmitida para o mundo.

Eu gosto de observar grandes eventos como quem lê um mapa: menos pelo que eles dizem e mais pelo que eles organizam — quem aparece, quem some, quem vira centro e quem continua sendo tratado como periferia. A apresentação de no foi exatamente isso: um gesto cultural que, por baixo da superfície pop, reposiciona símbolos, identidades e fronteiras do pertencimento.
Muita gente chama isso de “politizar o entretenimento”, como se a política entrasse depois; não fosse parte em si. Mas, ali, a política já estava no design; na estética, no idioma, no recorte cultural e, principalmente, na roupa.
A moda foi o primeiro portal. O look claro e aparentemente “simples” funciona como engenharia de visibilidade: na TV, o monocromático limpa ruído, destaca o corpo, deixa a silhueta memorável. Só que simplicidade, aqui, não é ausência de mensagem. É excesso de controle. É a escolha de não depender do espetáculo do luxo para ser icônico. E quando o figurino combina referências esportivas (jersey, número, sobrenome) com um acabamento quase cerimonial, ele resolve uma tensão essencial: ser “legível” para o público massivo sem abandonar densidade cultural.
É aí que a roupa deixa de ser figurino e vira argumento. Um argumento sobre escala, consumo e circulação. Quando uma marca de alcance global como Zara entra em cena junto de símbolos de prestígio (pense em relógio de Audemars Piguet) e de plataforma global (colaborações esportivas como Adidas), o que aparece não é só “estilo”: é a gramática contemporânea do poder cultural. Massa e raridade no mesmo corpo. Acesso e exclusividade no mesmo frame. Um lembrete incômodo de que, mesmo quando a narrativa é subalterna, a infraestrutura de valor ainda é global, e geralmente controlada por poucos.
Essa leitura conversa muito com o que Mi Medrado vem discutindo quando trata de moda como campo atravessado por colonialidade e por disputas de legitimidade estética. A provocação (que eu acho decisiva) é que a modernidade costuma sequestrar a palavra “moda” para si e empurrar as estéticas não europeias para o lugar de “traje”, “folclore” ou “tradição”, como se não fossem também invenção, projeto, linguagem e teoria. Quando um artista coloca referências boricuas no centro do ritual midiático mais “americano” possível, ele desafia essa hierarquia: não está pedindo espaço; está reorganizando o que conta como universal.
E aqui a discussão é de Política Internacional, mesmo que ninguém use esse nome. Porque o halftime não é um palco neutro. Ele é um dispositivo de diplomacia pública privatizada: liga, patrocinadores, streaming, marcas, algoritmos, imprensa. O “mundo” vê o que esse arranjo decide que será visto. Não é coincidência que esse arranjo seja, em grande medida, uma máquina cultural dos Estados Unidos, e nem é coincidência que a presença de Porto Rico ali carregue uma tensão histórica específica: pertença sem plenitude, presença sem equivalência, centralidade cultural com ambiguidade política.
Por isso, para mim, esse show funciona como um excelente teste para a ideia de autonomia que eu venho trabalhando no Realismo da Autonomia Periférica (RAP). Se autonomia é resultado incremental (e não um slogan), então o que vimos foi uma forma de autonomia estética operando sob condição estrutural.
Na viabilidade nacional, o gesto é de coesão simbólica ao transformar memória e identidade em infraestrutura de dignidade. Não é pouca coisa ver uma cultura tratada como vida plena, e não como caricatura. Na permissibilidade internacional, o movimento é ainda mais delicado ao usar o centro sem ser absorvido por ele. O artista entra no coração do espetáculo e não fez questão de “traduzir” demais sua linguagem para caber; ele forçou a vitrine a se adaptar. Isso é margem de manobra: quando a periferia deixa de implorar inteligibilidade e passa a impor presença.
Mas a terceira camada é a mais dura, a autonomia técnico-empresarial. Porque, embora a narrativa seja potente, a captura de valor ainda depende das engrenagens globais, como plataformas, cadeias de moda, marcas, patrocínios, infraestruturas privadas de atenção. É aqui que eu gosto de retomar uma ideia que já usei em outras análises. A autonomia periférica não nasce de “liberar geral” nem de “brilhar no palco”. Nasce de capacidade, coalizões e materialidade. O espetáculo pode abrir portas, mas não substitui densidade tecnológica, institucional e produtiva. Ainda sim, a mensagem importa e é potente.
E isso explica por que o show incomoda. Ele mexe no que eu chamo de “oxigênio condicionado”, isto é, a permissão para existir no centro é sempre monitorada, e qualquer gesto que alargue demais a definição de “quem é a América” vira alvo de disputa. Em outras palavras, o backlash não é ruído; é dado. É o sistema reagindo quando uma identidade subalternizada deixa de se comportar como convidada e passa a agir como coproprietária do símbolo.
No fim, eu não vejo a apresentação de Bad Bunny como “um show politizado”. Eu vejo como um lembrete de que moda é poder, cultura é infraestrutura e a arena simbólica é parte da ordem internacional. Às vezes, a geopolítica não se anuncia com tanques. Ela aparece com luz, câmera, tecido, idioma, e com a coragem de ocupar o centro sem pedir desculpas.




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