A Retórica do Retorno Imperial na MSC 2026
- Maurício Kenyatta
- 26 de fev.
- 13 min de leitura

Contexto
O MSC 2026 ocorreu entre 13 e 15 de fevereiro de 2026, em Munique, Alemanha, com atividades sediadas no Hotel Bayerischer Hof e no Rosewood Munich, conforme informações públicas sobre o evento e sua logística. (Comissão europeia, 2026).
A conferência é um fórum central de debate em segurança internacional, reunindo decisores políticos e lideranças diversas (governos, organizações internacionais, sociedade civil e outros). (Comissão europeia, 2026). O encontro se desenrolou sob diagnóstico de erosão do ordenamento internacional do pós-guerra e fragilização de alianças, com destaque para a tensão transatlântica e a reconfiguração do papel dos Estados Unidos na arquitetura de segurança europeia. (Unric, 2026; Euronews, 2026).
O conjunto de dados principal desta análise é o discurso e a sessão de perguntas e respostas atribuídos a Rubio no MSC 2026, em transcrição integral publicada como “Transcript: Marco Rubio Remarks at MSC 2026” (Rubio, 2026). Além deles, utiliza-se uma resposta crítica produzida por Mathias Risse no Harvard Kennedy School, que interpreta a fala como convite à restauração de uma “glorious world of Western dominance” e como expressão de “civilizational panic”. (Risse, 2026). Também se mobilizam textos teóricos de relações internacionais e críticas decoloniais/pós-coloniais para sustentar uma leitura autonomista da ordem internacional, explicitando a posição normativa e analítica que orienta a interpretação (Cox, 1981).
A retórica do “novo século ocidental” e a reabilitação do imperialismo
A fala de Rubio é construída como um “discurso de civilização”, ela desloca a segurança internacional do plano estritamente técnico (gastos, meios e dispositivos) para o plano “existencial” de defesa de um “povo”, uma “nação” e um “modo de vida”. (Rubio, 2026). Esse enquadramento é decisivo, pois em vez de apresentar uma agenda de segurança como negociação de interesses plurais e potencialmente conflitivos, ela produz um “nós” civilizacional (o “Ocidente”) cuja unidade é tratada como pré-política e superior a disputas internas. (Rubio, 2026; Risse, 2026).
O trecho mais estruturante para a crítica solicitada é aquele em que Rubio descreve “cinco séculos” de expansão ocidental como um processo quase épico: “missionários”, “peregrinos”, “soldados” e “exploradores” cruzando oceanos, “assentando” continentes e “construindo vastos impérios”. (Rubio, 2026). Em seguida, afirma que, a partir de 1945, o Ocidente teria “contraído” e que o declínio dos “grandes impérios ocidentais” foi “acelerado” por “revoluções comunistas” e por “levantes anticoloniais”, vinculados na frase a uma expansão futura do comunismo. (Rubio, 2026). A implicação é clara: a descolonização aparece menos como processo histórico de autodeterminação e mais como vetor de perda geopolítica do “Ocidente”, isto é, como problema a ser revertido.
Esse ponto não é marginal; ele funciona como dobradiça narrativa. Ao lamentar a “contração” pós-1945 e sugerir que “decline was a choice” que os predecessores teriam “refused to make”, Rubio afirma que os Estados Unidos de Donald Trump querem “fazer de novo” com a Europa a reconstrução da grandeza do Ocidente (Rubio, 2026). Aqui se materializa o “chamado” a um papel colonial renovado, porque não se trata necessariamente de propor colonização formal (como no século XIX), mas de revalidar o horizonte imperial como referência moral e estratégica, recusando a interiorização de culpas e constrangimentos normativos associados ao passado colonial (Rubio, 2026).
O discurso também explicita que a “revitalização” do Ocidente deveria incluir uma política econômica de reindustrialização e “soberania” de cadeias produtivas, acompanhada de uma agenda de fronteiras (controle migratório apresentado como “ato fundamental de soberania”) e de um reposicionamento institucional de não “abandonar” as instituições internacionais, mas “reformá-las” a partir do primado do “interesse vital” e da “liberdade de ação”, em crítica à “abstração” do direito internacional (Rubio, 2026). Vemos aqui, o processo de diluição dos organismos internacionais para posterior reconfiguração a partir de arranjos favoráveis. A articulação entre civilização, soberania econômica e soberania territorial converte o ordenamento internacional em instrumento de um projeto civilizacional, não em arena plural de acomodação entre iguais.
Há, além disso, um elemento diretamente vinculado à dimensão colonial nas relações internacionais, quando Rubio afirma a necessidade de uma “unified effort to compete for market share in the economies of the global South” (Rubio, 2026). A expressão revela que o Sul Global aparece como espaço econômico a ser disputado por uma aliança ocidental, reforçando uma lógica centro–periferia em que o “desenvolvimento” do centro depende da capacidade de controlar fluxos econômicos, padrões tecnológicos e acesso a recursos em periferias. (Rubio, 2026; Quijano, 2000). Esse ponto é crítico, para países, como o Brasil.
A crítica de Risse ajuda a explicitar o núcleo político-moral do pronunciamento. Ao falar de “civilizational erasure”, Rubio inverteria a direção histórica do apagamento civilizacional, deslocando o problema da destruição colonial (infligida a povos colonizados) para um suposto apagamento do “Ocidente” por autocrítica, imigração e transformações internas (Risse, 2026). Essa inversão é compatível com uma operação ideológica típica de projetos imperiais tardios que buscam converter a memória da violência colonial em obstáculo “psicológico” (culpa e vergonha) à ação geopolítica, e então tratar a superação desse obstáculo como condição de sobrevivência civilizacional (Rubio, 2026; Risse, 2026).
Autonomia como chave interpretativa da ordem internacional
Autonomia não é sinônimo de isolamento, mas a capacidade de ampliar margens de manobra decisória e estrutural em um sistema internacional assimétrico. Na tradição latino-americana, isso envolve reconhecer a dependência como fato histórico e estrutural e, simultaneamente, formular estratégias para “autonomização” por meio de desenvolvimento, opções diplomáticas e coalizões (Briceño Ruiz; Simonoff, 2017; Muñoz, 2016). No debate brasileiro recente, a literatura sistematizou modalidades de busca de autonomia, como “autonomia pela participação” e “autonomia pela diversificação”, associadas a estratégias de inserção internacional por meio de instituições, coalizões e ampliação de parceiros (Vigevani; Cepaluni, 2007).
Na leitura de Muñoz, por exemplo, a comparação entre Helio Jaguaribe e Juan Carlos Puig ressalta a autonomia como contraste com a dependência enraizada em experiências coloniais e em constrangimentos externos, vinculando a autonomização a projetos de nacionalismo e soberania (Muñoz, 2016). Briceño Ruiz e Simonoff descrevem o “autonomismo” como contribuição original do Sul Global à teoria de Relações Internacionais, enfatizando que seus pressupostos, embora formulados em contexto de Guerra Fria, continuam relevantes, ainda que demandem atualização para novas condições sistêmicas (Briceño Ruiz; Simonoff, 2017).
Desse modo, a fala de Rubio aparece como uma tentativa de reorganização da ordem internacional em que o “Ocidente” reforça sua centralidade e procura reverter tendências de pluralização de poder e autonomia periférica (Rubio, 2026; Cox, 1981).
No plano decisório, o discurso afirma que a “ordem global” não pode se sobrepor aos “interesses vitais” nacionais; instituições devem ser “reformadas” de modo compatível com a “liberdade de ação” do bloco ocidental (Rubio, 2026). Sob um prisma autonomista, trata-se de uma hierarquização normativa, o resgate do universalismo jurídico-institucional seria aceitável enquanto não restringe o centro; quando restringe, torna-se “abstração” que adversários usariam como “escudo” (Rubio, 2026). Esta posição tende a estreitar espaços de autonomia de países periféricos justamente porque enfraquece previsibilidade normativa e amplia a discricionariedade do polo hegemônico, condição típica de ordens imperiais, em que regras são mais facilmente particularizadas. (Cox, 1981).
No plano material-produtivo, Rubio coloca a “independência” em termos de capacidade industrial e soberania de cadeias produtivas, criticando a dependência externa e defendendo reindustrialização e controle de suprimentos estratégicos (Rubio, 2026). Contudo, a autonomia reivindicada é seletiva, pois ela aparece como direito do centro (ocidental) de não depender “de outros” para “necessidades críticas”, enquanto o Sul Global é explicitamente inscrito como campo de competição econômica (Rubio, 2026). Na gramática autonomista, isso repõe a velha assimetria, autonomia para o centro; dependência administrada para a periferia, agora em regimes tecnoprodutivos (minerais críticos, automação, IA) e regimes financeiros e comerciais, em vez de dominação colonial formal (Quijano, 2000; Briceño Ruiz; Simonoff, 2017).
No plano epistêmico, o discurso é ainda mais revelador. Ao narrar a história do “Ocidente” como saga de grandeza e expansão e ao tratar levantes anticoloniais como componentes do declínio, ele tenta redefinir a memória legítima do sistema internacional. (Rubio, 2026; Risse, 2026). Uma perspectiva autonomista robusta precisa incluir essa dimensão, já que autonomia não é apenas capacidade estatal de escolher políticas; é também capacidade de produzir interpretações e vocabulários que não naturalizem a hierarquia centro–periferia, nem convertam a subalternização em “destino” ou “atraso”. (Cox, 1981; Briceño Ruiz; Simonoff, 2017).
Em termos de ordem internacional, portanto, a fala de Rubio pode ser lida como proposta de “re-ocidentalização” do pós-1945: preserva-se o repertório institucional, mas altera-se o princípio normativo de funcionamento, substituindo a pretensão de universalidade por uma lógica civilizacional de bloco, com prioridade a fronteiras, produtividade, disciplina social interna e capacidade de coerção externa. (Rubio, 2026; Euronews, 2026). Para uma análise autonomista, o efeito provável é a compressão de autonomias periféricas e o aumento da vulnerabilidade estratégica de países que dependem de regras estáveis e de multilateralismo “mais vinculante” para reduzir assimetrias. (Cox, 1981; Briceño Ruiz; Simonoff, 2017).
Interlocução decolonial e pós-colonial: colonialidade, subalternidade e epistemicídio
A crítica decolonial oferece uma chave decisiva para interpretar por que o “retorno” do imaginário imperial não é apenas retórico, mas estruturante. Em Aníbal Quijano, a colonialidade do poder designa a permanência, após o colonialismo formal, de um padrão global de hierarquização racial, econômica e epistêmica, no qual a Europa (e depois o “Ocidente”) concentrou controle sobre o mercado mundial e sobre a produção legítima de conhecimento, convertendo diversidade histórica em uma ordem cultural global sob hegemonia europeia/ocidental (Quijano, 2000). Essa descrição ilumina o mecanismo discursivo de Rubio: ao falar da expansão imperial como “herança” e ao convocar orgulho “sem culpa”, o que se busca é normalizar novamente o centro como sujeito moral da história, exatamente o eixo epistêmico que Quijano identifica como componente da hegemonia ocidental (Rubio, 2026; Quijano, 2000).
A proposta de Walter Mignolo radicaliza esse ponto ao defender a necessidade de “de-linking” (desvinculação) da matriz colonial de poder, entendendo decolonização como projeto epistêmico e político de construir alternativas a partir de epistemologias de fronteira (Mignolo, 2007). Se aplicamos essa lente ao MSC 2026, a fala de Rubio opera como tentativa de impedir essa desvinculação ao reposicionar a modernidade ocidental como fundamento inevitável e desejável e redefinir o conceito de “libertação” (anticolonial) como componente do “problema” que teria interrompido a dominância ocidental (Rubio, 2026; Mignolo, 2007). A busca por autonomia passar a ser conectado com outros conceitos que já vêm sofrendo processo de deturpação, como “comunismo”, “democracia”, “liberdade”, “direitos humanos”, entre outros.
No campo pós-colonial, Gayatri Chakravorty Spivak descreve a persistência do “sujeito ocidental” e a violência epistêmica que constitui o “Outro” colonial, além de interrogar as condições sob as quais o subalterno “pode falar” em circuitos dominados por produção intelectual metropolitana (Spivak, 1988). O discurso de Rubio é quase um laboratório dessa dinâmica, pois ele constrói o Ocidente como sujeito unitário, dotado de destino histórico (“master of its own economic and political destiny”) e de autoridade de reformar a ordem global, enquanto o Sul Global aparece como espaço de disputa econômica e de projeção estratégica, sem voz própria no desenho do futuro (Rubio, 2026; Spivak, 1988).
A teoria pós-colonial também ajuda a compreender a dimensão representacional desse tipo de narrativa. A tradição associada a Edward Said enfatiza como representações do “Oriente” e do “Outro” operam como construção discursiva que sustenta relações de poder, produzindo inferiorização e justificando práticas políticas (Britannica, 2026a; Britannica, 2026b). Embora Rubio não esteja fazendo um “orientalismo” clássico no sentido estrito, a lógica é análoga, pois se cria uma fronteira civilizacional (nós/eles) que organiza quem tem direito à agência plena. A defesa de um “novo século ocidental” com competição unificada no Sul Global reativa, por outra via, a velha autorização discursiva para “administrar” periferias. (Rubio, 2026).
Na crítica filosófica do colonialismo, a tradição que passa por Frantz Fanon é especialmente útil para mostrar como a violência colonial não é acidente, mas fundamento de uma ordem, e como a descolonização envolve lidar com heranças materiais e psíquicas do domínio colonial (Kohn, 2006; Drabinski, 2019). A reabilitação discursiva do império por Rubio, convertendo dominação em “exploração” e “herança” opera como neutralização dessa violência fundacional e, assim, como recusa de um ajuste de contas histórico que é condição para uma ordem menos hierárquica (Rubio, 2026; Risse, 2026).
Por fim, a categoria de Achille Mbembe sobre necropolítica permite recolocar a discussão de soberania e violência no centro da crítica. Mbembe define soberania, em sua expressão máxima, como poder de decidir “quem pode viver e quem deve morrer”, conectando política e regimes de morte (Mbembe, 2016). Embora Rubio trate a coerção como requisito de um mundo imperfeito e evoque a insuficiência de missões de paz, como a ONUC (Operação das Nações Unidas no Congo) e do direito internacional, o ponto autonomista-decolonial é que a assimetria de capacidade coercitiva é precisamente o que torna “reformas” institucionais propostas pelo centro potencialmente reprodutoras de regimes hierárquicos (inclusive de morte), sobretudo quando a legalidade é reduzida a “abstração” instrumental (Rubio, 2026; Mbembe, 2016).
O “chamado colonial”, nessa leitura, não precisa enunciar explicitamente “colonização”: basta reativar (i) uma memória positiva da expansão imperial, (ii) uma recusa de culpa e de limites normativos, e (iii) um programa de reordenação econômica e institucional em que o Sul Global é objeto de disputa e não sujeito de ordenamento (Rubio, 2026; Quijano, 2000; Spivak, 1988; Mignolo, 2007).
Contraponto realista: hegemonia, interesse e a política de poder travestida de civilização
Uma leitura realista permite compreender por que narrativas como a de Rubio reaparecem com força em momentos de transição hegemônica e incerteza sistêmica. O Realismo, em suas formulações clássicas e estruturais, enfatiza a centralidade do Estado, a competição sob anarquia e o papel do poder e da segurança como eixos de conduta internacional (Korab-Karpowicz, 2010). Por essa via, a fala de Rubio pode ser interpretada como uma estratégia de mobilização política, tanto doméstica quanto internacional, para recompor a capacidade relativa dos Estados Unidos e reconfigurar o “ocidente” como uma coalizão de poder capaz de competir com rivais sistêmicos (Rubio, 2026; Korab-Karpowicz, 2010).
Há elementos nitidamente compatíveis com esse diagnóstico, como a insistência em reindustrialização e cadeias de suprimento; centralidade das fronteiras (como dimensão de soberania); pressão por aliados “fortes” e militarmente capazes; e a ideia de que instituições internacionais só são úteis se servirem a interesses nacionais vitais (Rubio, 2026). Em linguagem realista, trata-se de aumentar recursos de poder e reduzir vulnerabilidades, especialmente em um ambiente de erosão de confiança e fragilização de alianças, quadro que análises contemporâneas do MSC e do Munich security report descrevem como período de “wrecking-ball politics” e transformação da ordem do pós-guerra (Euronews, 2026; Unric, 2026).
Entretanto, a perspectiva autonomista permite um passo além, mesmo que a interpretação realista explique a racionalidade estratégica do centro, ela não resolve o problema normativo e estrutural do sistema internacional hierárquico. Aqui, a contribuição de Robert W. Cox é decisiva, pois “a teoria é sempre para alguém e para algum propósito”, e a distinção entre teorias “problem-solving” e teorias críticas depende de se naturalizar ou questionar a ordem vigente. (Cox, 1981). O discurso de Rubio, sob esse prisma, é “problem-solving” para a hegemonia, porque pretende tornar “o ocidente” funcional, coeso e capaz de exercer poder sem constrangimentos morais associados ao passado imperial (“guilt and shame”), revigorando uma aliança que não “peça permissão antes de agir”. (Rubio, 2026).
O autonomismo, em contraste, pergunta: para quem esse “revigoramento” é funcional? Em geral, para os polos centrais que desejam maximizar sua liberdade de ação e sua capacidade de coerção. Para periferias e semiperiferias, a consequência tende a ser o estreitamento das condições de barganha e a intensificação de pressões (econômicas, tecnológicas, militares e discursivas) (Briceño Ruiz; Simonoff, 2017; Cox, 1981).
A própria ênfase de Rubio em competir por divisão de mercados no Sul Global permite conectar esse movimento a uma racionalidade realista de disputa por recursos e influência, mas também evidencia o conteúdo (neo)colonial de uma hegemonia que depende de assimetrias (Rubio, 2026; Quijano, 2000). Em suma, o Realismo ajuda a explicar o retorno da linguagem de poder; o autonomismo e a crítica decolonial ajudam a nomear os custos sistêmicos e a denunciar a naturalização de hierarquias como “necessidade civilizacional” (Korab-Karpowicz, 2010; Briceño Ruiz; Simonoff, 2017; Quijano, 2000; Risse, 2026).
Considerações finais
A fala de Rubio no MSC 2026 pode ser lida como peça de rearticulação ideológica de um projeto de hegemonia ocidental em contexto de instabilidade e contestação da ordem internacional. Seu núcleo mais problemático, para uma análise crítica, está em (i) reabilitar a expansão imperial como herança a ser celebrada, (ii) enquadrar levantes anticoloniais como catalisadores do declínio ocidental e (iii) convocar a Europa a “andar junto” em uma nova fase de revitalização da dominância do “ocidente”, com recusa explícita de culpa histórica (Rubio, 2026).
À luz das teorias da autonomia, isso sinaliza uma tentativa de reduzir o espaço de autonomia periférica por meio de uma ordem civilizacional de bloco, capaz de competir economicamente no Sul Global e de redesenhar instituições sob primado do interesse do centro (Briceño Ruiz; Simonoff, 2017; Vigevani; Cepaluni, 2007). Em diálogo com Quijano, Mignolo e Spivak, o discurso reativa a colonialidade do poder no plano epistêmico ao reconstruir o “ocidente” como sujeito universal e relegar o Sul Global ao papel de objeto de disputa, reproduzindo violência epistêmica e apagamentos históricos (Quijano, 2000; Mignolo, 2007; Spivak, 1988).
O contrapeso realista explica por que tal discurso é funcional para uma estratégia de recomposição de poder e coerção; mas, na acepção de Cox, uma crítica autonomista precisa questionar o “propósito” de tal teoria e de tal projeto ao analisar quem ganha autonomia (poder de ação) e quem a perde (Cox, 1981; Korab-Karpowicz, 2010).
Por fim, o caso MSC 2026 sugere que a disputa contemporânea não é apenas por capacidades materiais, mas por regimes de legitimidade. Está em jogo quem tem direito a reescrever o passado (colonialismo como “grandeza”), a normatizar o presente (direito internacional como “abstração”) e a colonizar o futuro (Sul Global como “market share”). Autonomia, nesse sentido, é também autonomia de memória, de linguagem e de projeto histórico (Rubio, 2026; Risse, 2026; Quijano, 2000; Mignolo, 2007).
Referências
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